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O Nó

O ranger da tábua ao receber um nó de uma corda com seu laço, soa tão profundo quanto qualquer sinfonia. Afaguei a barba, respirei fundo, uma última olhada ao redor e, até que enfim, passei o laço por minha cabeça e ajustei-o em meu pescoço. Subi no apoio de costas de um banquinho, quase perdendo o equilíbrio. Carregava entre os dedos da mão esquerda, um cigarro e um copo de uísque barato. Traguei, engoli a bebida e a senti no nó enquanto escorregava pela garganta. Quente. Anestésico. Com os dois pés no apoio da cadeira, inclinando já para sua queda, parei. Olhei o sol e travei. Como se tivesse renovada minha vontade de viver, eu desci daquela merda e subi. Minha casa estava linda. Minha esposa desfilava pela sala, vestida com uma camisa minha, dançando ao som de um soul qualquer. Minhas estantes estavam cheias de livros, meus escritos eram a literatura mais lida nos últimos 5 anos e era havia me tornado professor, com direito a homenagens e tudo mais. O sorriso das pessoas, a fórmula mágica de ser o dono do mundo. Poder e vida. Um êxtase de prazer em respirar. Curti mais um dia de pleno orgasmo existencial, pois me sentia preenchido. O vazio havia indo embora e agora tudo fazia sentido. Eu sentia novamente. Jantei, fumei, bebi meu uísque antes de ir pra cama, risquei-lhe um poema, fiz amor com a mulher da minha vida e fui ao banheiro. Senti o chuveiro quente demais para aquele dia. Esquentou até a fiação explodir, deixando tudo escuro e a água fria. Gelada como um cerveja retirada do freezer. O silêncio pairou, não achei minha toalha e lembrei-me do que acontecia a seguir. Dessa vez acendi um cigarro, desviei das pessoas e sentei-me perto da janela. A maioria desolados, outros contando causos nos fundos, minha esposa completamente dopada, enquanto eu, sentado em minha poltrona assistia meu próprio velório.


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