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A Maldição do Lobisomem da Canjica


Quando a névoa se instala sobre os campos baixos de Iriringá e a lua cheia se eleva entre as copas retorcidas dos salgueiros, a região conhecida como Canjica se transforma. Os aldeões mais antigos evitam sequer pronunciar o nome desse lugar em voz alta nas noites de luar — dizem que isso atrai a fera. E foi em uma dessas noites que as histórias deixaram de ser apenas lendas, tornando-se uma ameaça real.

Nos últimos ciclos lunares, moradores das redondezas relatavam desaparecimentos estranhos: gado encontrado estraçalhado, cães que uivavam sem parar e, principalmente, rastros que pareciam pertencer a algo não totalmente humano — uma criatura que caminhava em duas pernas, mas deixava pegadas de fera. A angústia crescia, principalmente após a notícia do sumiço de um jovem do vilarejo de São João da Várzea, desaparecido ao voltar de uma visita à avó, cuja casa se localizava às margens do capinzal da Canjica.

Chamados às pressas pelos líderes da vila, um grupo de aventureiros de Iriringá se lançou à investigação. Compostas por uma maga estudiosa, um guerreiro veterano, um clérigo da deusa Lórea e uma ladina de olhos atentos, a companhia partiu ao entardecer, guiada apenas por boatos e fé. O céu já alaranjava quando chegaram aos campos de Canjica — um terreno alagadiço, entrecortado por fileiras de cana crescida, onde a brisa parecia sussurrar palavras esquecidas.

Uma senhora os recebeu com hospitalidade estranha numa casa simples de madeira, jurando ter visto, na última noite, uma sombra cruzando o campo em altíssima velocidade. Ela tremia ao contar que seus avós já falavam de um lobisomem, amaldiçoado por ter nascido como o oitavo filho homem consecutivo, condenado a virar fera em toda lua cheia. Seu corpo, dizia ela, era de carne e ossos humanos, mas seu rosto — ah, seu rosto! — era de lobo, com olhos amarelos que refletiam o pecado de toda a linhagem.

À noite, quando a lua cheia se projetou sobre o capinzal e a umidade fazia o chão parecer respirar, os aventureiros se embrenharam entre a vegetação alta. A ladina foi a primeira a ouvir. Um estalo. Depois, outro. E então o uivo. Não um uivo comum, mas um grito de dor, como se a própria carne estivesse se rasgando em agonia. Dos arbustos, surgiu a criatura.

Era enorme, com quase três metros de altura, coberta por pelos escuros e sujos. Seu corpo parecia ter rompido as roupas humanas, e em sua mandíbula pingava sangue fresco — talvez de algum animal, talvez não. Os olhos, sim, eram humanos, profundamente tristes, como se implorassem por redenção mesmo quando as garras buscavam carne.

O guerreiro investiu com sua lâmina longa, mas foi repelido pela força da criatura. A maga tentou conjurar um círculo de proteção, mas a fera era veloz demais. Foi o clérigo quem teve um vislumbre da verdade. Em seu grimório ancestral, havia lido que somente prata consagrada podia ferir verdadeiramente um lobisomem amaldiçoado por herança de sangue. Em sua mochila, carregava um punhal herdado de um velho guardião do templo de Lórea. Sem hesitar, aproximou-se e recitou orações antigas enquanto a criatura investia contra ele com fúria e desespero.

No instante em que o punhal tocou a carne da besta, um brilho dourado rompeu o breu. A criatura uivou em dor e recuou, cambaleando. Sua forma começou a se contorcer, retornando à de um jovem de roupas rasgadas, com olhos úmidos de culpa. Chamava-se Damião, e ao cair de joelhos no barro, contou, entre lágrimas, que fora amaldiçoado aos treze anos e que há anos se escondia nos pântanos durante a lua cheia para evitar ferir os outros — mas naquela noite, havia perdido o controle.

O grupo, comovido, levou Damião de volta à vila. Lá, o clérigo realizou um ritual de purificação, e a prata foi usada como foco para quebrar o ciclo da maldição. Embora exausto e ainda marcado pelas dores da transformação, Damião foi acolhido pela comunidade e passou a viver no templo, buscando sua redenção em serviço e silêncio.

De volta ao Reino de Iriringá, os aventureiros foram recebidos como guardiões da paz e da memória. A história do Lobisomem da Canjica deixou de ser apenas um mito sussurrado ao pé do fogo, transformando-se em lição e símbolo: de que há monstros que nascem da maldição, mas também da solidão e da falta de acolhimento — e que até mesmo as feras mais perigosas podem ser curadas quando há coragem, compaixão e luz.



Este conto foi criado coletivamente na Turma 4 da oficina “Literatura Interativa: Oficina de RPG nas Escolas”, realizada na Escola de Educação Básica Professora Maria Garcia Pessi, com alunos do programa de Altas Habilidades e Superdotação. A narrativa foi inspirada na lenda araranguaense do “Lobisomem da Canjica” e adaptada para o universo de fantasia do livro “O Reino de Iriringá”, como parte do projeto realizado com apoio do EDITAL DE CONCURSO PÚBLICO Nº 37/2023 – Lei Paulo Gustavo – LPG – D+ SC/2023, do Estado de Santa Catarina.


 
 
 

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