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Alma Periférica

A boca amargou o veneno que curava a alma que alucinava enquanto chovia sangue pelas calhas em um dia de festa. O suor me correu a testa como quem corre uma maratona. Tudo veio à tona. Beijei a lona, a juíza e o céu. Fumaça púrpura faz teu véu em volta do meu carrossel. Cabeças giram, pedras voam e coronéis atiram suas impressões implícitas num esquadrão de milícias. Acaricio a malícia com a destreza de quem se perde num rebolar de quadris. Ricos de giz confundem-se com o pó de um nariz atormentado pelo vício de não suportar o tédio. Sem julgar os vícios alheios, segui sem receio pela estreita rua que agitava meu dia exalando a rebeldia que a liberdade natural te suporta. Nada me importa. Pelas portas, os portais para realidades distintas. Advindas de sonhos mastigados como restos de um mingau miado e frio. Calafrio cortou-me a nuca. O nunca jamais fora tão possível quanto o desejo de sobrevoar a vida e lá de cima ver a sucumbência do agora. As horas pularam do relógio, deixando imóvel a todos como um feitiço do tempo. O vento soprou o bafo quente de uma cidade em chamas que clama o perdão em forma de prato. Os fatos mudam sua sequência para que o óbvio cuspa sua subjetividade em todas as teorias ousadas que tornaram a transformá-lo em destino. A alma de um menino vagava pelas minhas veias, dançando em uma teia, onde a aranha o rodeia e acende as velas pro jantar. Além mar o descer do sol sublimemente traz as trevas de volta ao beco. Um terço de um meio sagrado numa oração de pé juntos para um defunto que ainda caminha. Salve Oxalá, Ogum e os santos protetores das esquinas. A Encruzilhada do samba, no bater de um tambor, trouxe o valor da boemia que teima em conquistar ébrias donzelas imaginárias de cada poeta que habitam as tavernas. De boteco em boteco, o teto se fez chão, meu amor se fez ilusão e numa questão de segundos, o vagabundo tornou-se rei. Já nem sei de onde veio o disparate. O caminhão de descarte recolheu o lixo humano como que varre os cacos pra baixo do tapete. Aumentou a sede e a cerveja não deu conta de curar a ressaca. A barra da saia da noiva se rompeu no mesmo instante que os meninos soltaram fogos ao ver os urubus sobrevoando uma cidade de carniças. A santa ceia da justiça veste preto e serve frio o presunto. O tumulto se fez festa do pobre, no qual o nobre comandante da lei impôs o comando e se deu início aos prantos. Aos tantos, amotinados, os ratos procuraram suas tocas, vielas e prateleiras. À espreita, gatos e ratoeiras juntaram-se pro jantar. Hoje o porco iria assar no marchar de um coturno ensanguentado. Os fiapos do meu casaco se prenderam na madeira solta da soleira de um beco. O ar já não era fresco e o bala não foi doce. O açoite no escravo se deu novamente. Primeiro tenente ou capitão do mato? Entre os cacos, me perdi no desembaraço e vi pessoas queimadas como se fossem maços de cigarros baratos. Os pratos se quebraram, as portas se fecharam, as vespas transpassaram as paredes. Fui pego na rede e adormeci como um baiano. Atravessei canos a céu aberto, muros de concreto e um túnel incerto que me trouxe a este desespero. A poeira baixou, a vela acendeu e agora, em meu traje a rigor, narro o horror de assistir meu próprio enterro.

Yuri Cidade

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