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Através Do Nada

Desalento. Bagunço meus pensamentos só pra ter o prazer de procurar resposta. A proposta as vezes é falha, mas serei eu tão canalha ao ponto de me prostituir à seu padrão? Vermes em vão em um mundo cão que teima em me desmerecer, fazendo do meu presente uma busca pelo viciante prazer de estar sozinho. Todo mundo quer um ninho, enquanto que eu, prefiro a presença da solidão. Nas minhas mãos, apenas um cigarro, minha caneta e uma folha em branco, deixando que os tantos sejam poucos e que alegria supere o sufoco. Desafogo. Marcas no pescoço de uma noite selvagem. Animal é ter coragem para humano poder ser e exercer sua sucumbência à vontade de existir. A gente só chora pra depois poder rir. De desespero ou de euforia, tanto faz, a vida não é nada mais do que uma incessante luta pelo próximo dia. O futuro não me assombra. O passado é que faz sombra e tenta se fazer presente no meu café. Frio e sem gosto, me ponho de pé, engulo tudo em seco, arrumando um novo pretexto para sair por aquela porta. O mundo lá fora, é selva. Sua relva é concreto, prédios e neblina de fumaça. Às vezes a gente até disfarça, mas não conseguimos esconder que tudo é só uma farsa. Esparsas conversas, companhias divinas e a santa trindade da humana consciência. “Alma, espírito, corpo, mente. Sua jornada diligente faz valer o sacrifício. É isso.” São as palavras de um poeta ritmado que me instigam a continuar desvendando uma alegoria secular neste chão onde o ser humano tende a se arrastar. Caminhar é mais difícil que voar, pois pra este não precisa de pernas, apenas basta fechar os olhos e sonhar. Quantas vezes eu hei de cair e levantar? Acordar de um pesadelo é o que eu tento ao me beliscar com meus vícios, procurando desde o início a superação do meu instinto. Recinto de idéias são meus cadernos, em monólogos eternos converso com o nada, deixando que as palavras sejam espíritos livres à criar seu próprio mundo pelas minhas páginas. E se eu também for personagem de um poeta? Ou só uma fracassada meta? Vago por entre profetas do apocalipse e os astrônomos que apontam o próximo eclipse. A elipse planetária se faz uma mortalha de vivos que teimam em se destruir ao construir seus impérios, ignorando que somos apenas parte do exército que cisma em se autodestruir. Bomba relógio, eu sei que permaneço. Aguardo o dia em que pagarão meu preço para tudo isso desmentir. Corrupto até os ossos, me seguro do jeito que posso, trabalhando para poder desfrutar do ócio que tiraram de mim ao nascer. Se eu estarei aqui para tudo isso poder ver? Não sei. Amanhã posso estar vivo em outra dimensão, mas jamais saberei ao certo se a razão tem realmente razão. Paz de espírito é poder dizer que se está vivo sem ter que pedir perdão.

Sem noção, permaneço incrédulo na minha janela, deixando que ela me ganhe num jogo de pernas a caminhar pela praça. A vida só perde a graça porque é de graça. Se fosse paga, seria riqueza, e a vida alheia não seria a pobreza estampada na desgraça. Na minha próxima manchete, apenas o caos nesta divina maquete que chamamos de mundo. Raso ou profundo, é tudo questão de ponto de vista. Mas pra quem ainda continua cego, que adianta o trabalho do artista? Na pista, o som incumbe aos personagens o próximo passo de um compasso viciado em se exibir, procurando apenas mais um motivo para continuar a existir. Quero morrer de rir, pois viver chorando é a realidade de um país que me fez escravo. Minha própria sepultura eu cavo ao tentar ser diferente. “Sorria e mostre os dentes, Yuri” Talvez no próximo sorriso eu não me segure e volte a morder a mão que me controla. Pulo as horas, vou embora e adormeço, porém amanhã eu já esqueço que hoje paguei o preço de querer ser. Ver pra crer, aprender e absorver, engrandecer meu espírito assumindo o risco de me perder. Este é meu plano para continuar à sobreviver. E você?

Yuri Cidade

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