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Havana e uma máquina de escrever

Este é meu último charuto. A máquina de escrever dava som à minha agonia, com as batidas rápidas enquanto cuspia tais palavras neste papel.

Tudo começou em 69, no auge da ditadura que se passava no Brasil. Como todo jornalista, era perseguido pelo pessoal do governo, os militares.

As ruas fervilhavam de manifestações e confrontos policiais. As viaturas do recém instalado DOI-CODI  levavam todos os dias uma pilha de estudantes, artistas, jornalistas ou qualquer um que eles achassem que eram comunistas e ameaçavam o poder. Todo santo dia alguém me contava de um conhecido que foi eletrocutado, estuprado, espancada, além de morto obviamente, pelos militares. Era meu destino também.

Lembro-me daquele fatídico dia em que Luiz entrou em minha sala gritando:

– Teu nome tá na lista! Corre. Some. Qualquer hora eles estão estourando aqui.

Mal respondi e disparei pela redação. Catei meu casaco e corri o mais rápido que pude até meu sobrado. Enfiei o que tinha, e cabia, em uma mala. Mais da metade de minhas produções ficaram pra trás. Desci as escadas e dei uma última olhada no lugar. O sentimento de revolta e tristeza se misturaram, me fazendo chorar algumas lágrimas. Meu país não me aceitava. Talvez até a vida já não me aceitasse mais. Mas abdicar de meus ideais não era uma opção.

Peguei um ônibus até o porto, e consegui me enfiar, mediante suborno, em um cargueiro que rumava à Cuba. Estava pouco me fodendo pra onde estava indo, nada fazia sentido enquanto olhava minha terra se afastando pouco a pouco. Ah Brasil! Que fizestes com teus filhos?

Foram alguns dias naquela joça balançando mar à fora. A porra do barco me impedia de beber. Bom, quase impedia. Porque vire e mexe eu assumia o risco de vomitar até Cuba para não ter que aguentar aquela porra sóbrio. Já não tinha nem mais roupas limpas. Até que o capitão avisou que estaríamos no porto de Havana em mais algumas horas. Me animei, fumei mais alguns cigarros com o pessoal do cargueiro e esperei incessantemente pelo momento que colocaria meus pés em terra firme.

Desci e o calor de cuba inundou meu peito. A paisagem paradisíaca perfurava meu olhar, fazendo-me esquecer daquela pátria amada. As pessoas pareciam estar sempre andando em ritmo de salsa. Fui andando até a rua e vi contraste entre carros exuberantes, a miséria de algumas almas penadas pelos bares e o tanque de guerra do exército cubano desfilando ordem e poder bélico suficiente pra praticar um genocídio. Atravessei a avenida e adentrei no primeiro barzinho que vi. Lá dentro os tiozinhos já estavam de fogo há algumas horas. Um solitário violonista afinava um bolero hipnotizante, enquanto o barman tagarelava alto na medida que os bebuns do balcão pediam mais uma. Me aproximei e soltei meu melhor pior espanhol:

– Ei, amigo. Hola que tal?

A conversa cessou e todos os malditos olhos eram pra mim. O Barman me deu uma encarada. Aquele crioulo de 2 metros de altura e 150 quilos sabia como intimidar. Falou:

– Vienes desde donde, gringo? (Vens de onde, gringo?)

Sem entender porra nenhuma, chutei.

– Soy brasileño. Busco habitación en alquiler. (Sou brasileiro. Busco um lugar para alugar) – o cara ainda me encarava firmemente

Um silêncio repentino. Até que o mesmo soltou uma gargalhada.

– Bienvenido a Cuba, amigo! Quieres beber? Tengo el mejor tequila Habana. (Seja bem vindo a cuba, amigo! Quer beber? Tenho a melhor tequila de Havana.) – entendi perfeitamente o bem vindo e o tequila.

– Voy a querer hacer. Veo una dosis doble. ¿Qué pasa con la vivienda? sabes algo? (vou querer sim. Me vê uma dose dupla. E quanto a moradia? sabe de algo?

– Ya traer su bebida. Sí, usted tiene una habitación aquí por arriba del travesaño. ¿Puedo alquilar a usted. Es la última. (Já trago sua bebida. Sim, tem um quarto aqui em cima do bar. Te alugo. É o último.)

Sem nem ir conhecer o lugar, larguei:

– Aceptado! (Aceito!)

Bebi por algumas horas, até que o Barman teve que me ajudar a subir as escadas. Abri a porta e dei de cara com o que seria meu lar durante longos 15 anos. O quarto não era muito grande, mas tinha uma cama, um banheiro, um frigobar que não funcionava muito bem, um ventilador velho e um fogareiro de duas bocas. Mais ao lado havia uma mesinha, onde atirei minha mala com meus escritos e já assumi o lugar destinado às minhas palavras. Desabei na cama e apaguei por 8 horas.

Acordei e era madrugada. O gosto de álcool exalava pela minha saliva. Uma dor de cabeça filha da puta. Peguei meus cigarros e fui até há uma janela que servia como sacada. Enquanto tragava, observei toda a cidade de Havana pulsando em seus clubes. Magnatas vindo de outros países aproveitavam a prostituição e a boemia cubana. Luxo de outros, trabalho dos filhos da própria terra. Cuba seduzia. Era um ritmo até no cheiro, na cor e na temperatura das coisas. E como fazia calor naquele lugar. Mas ao observar aquilo, lembrei do meu sobrado, da minha terra. Não conseguia esquecê-la, mas comecei a ver que poderia amar onde estava.

As primeiras duas semanas foram basicamente para comprar uma estante e todos os livros que consegui com o dinheiro que trouxe, antes que gastasse tudo com bebida. O resto eu realmente gastei com bebida, cigarros e a melhor marijuana que cuba podia oferecer. Os charutos tinham gosto de vida.

Já haviam se passado uns meses. Eu consegui emprego num jornal da cidade. Era responsável por escrever as matérias relacionadas ao que acontecia no mundo fora de Cuba. Ou seja, era meu manifesto contra a ditadura brasileira.

Comecei a frequentar os clubes de Havana, aprendi a dançar aquele ritmo e me atrai por todas as lindas mulheres que aquela terra oferecia. Eram tão vivas. Tão lindas naturalmente. E num desses dias, ou melhor, noites, encontrei a única mulher que foi capaz de me fazer apaixonar-me com um simples esbarrão. Marianna.

– Perdone, señorita! Yo no vi…(Desculpa, moça! Eu não vi…) – e calei-me idiotamente encantado com os olhos daquela morena. Seus cabelos naturais caídos pelos ombros, e um vestido branco, leve como pluma a revelar aquele corpo inexplicavelmente divino.

– No tan gringo. (Não por isso, gringo.) – e riu.

– ¿Cómo sabes que soy gringo? (Como sabe que sou gringo?)

– Su acento. Brasil aún tiene algo en él. (Seu sotaque. Ainda tem algo de brasileiro nele.)

Arregalei os olhos impressionados com a audição da moça.

– Impresionante. ¿Como se llama? (Impressionante. Como se chama?) – perguntei

– Marianna. ¿Y tu? (Marianna. E você?) – riu de canto de boca.

Me apresentei e ela me convidou para uma noite no clube que iria se apresentar. Marianna estava divina cantando aquela noite. Sedutora e voraz. Dona de uma voz com pressão que inundava o sala e os corações dos boêmios. Bebi várias enquanto olhava-a à dançar. Ao terminar seu espetáculo, me viu de cima do palco, e fez um gesto para que esperasse a mesma.

Passei no banheiro, mijei uma noite de conhaque, joguei uma água no rosto e voltei pro balcão. Neste mesmo instante vinha ela desfilando e driblando os corpos e olhares, fixando sua direção na minha.

– ¿Y ahí? ¿Que crees? (E aí? O que achou?) – perguntou acendendo um cigarro e pediu um uísque.

– Usted es fantástica, Marianna. Sin poesía que escribo es digno de su genio. (Você é fantástica, Marianna. Nenhuma poesia que eu escrever é digna de tua genialidade.)

– Oh que escribe? Es un poeta? (Ah você escreve? É um poeta?) – disse se aproximando

– Trato. Pero me encanta lo que hago. (Tento. Mas amo o que faço.)

O diálogo se discorreu até o ponto que estávamos tão bêbados e safados, que subimos ao meu apartamento e transamos por horas. Pude sentir a alma de Marianna entregue com a minha. Nada me fez tão feliz na vida quanto aquela noite.

A paixão foi arrebatadora. Em meses estávamos casados morando naquela pocilga que eu chamava de lar. Repeti inúmeras vezes que ainda iria levá-la ao Brasil, quando lá fosse livre novamente. Mas as cartas de meus amigos que chegaram durante esse tempo, não me animavam em nada. Mortes e torturas ainda assolavam a democracia brasileira. A livre expressão era ato criminoso, digno do inferno quando descoberto. E acredite, eles sempre descobrem. Era como se fosse um castigo por quem já havia sido roubado desde 1500. O povo que não conseguiu aprender porque não fora deixado.

Continuei com Marianna por longos anos, exatamente 13. Íamos as praias enquanto ela dourava sua pele morena. Escrevi poesias derramadas a ela. E foi ela mesma quem me incentivou a investir na escrita. Traduziu todos os meus escritos comigo e me ajudou a publicar, me tornando conhecido na América latina enquanto exercia minha literatura de resistência. Nunca fui de carregar armas, então lutava com o vocabulário. Enquanto isso perseguiam meus amigos e irmãos em solo brasileiro. A coisa tinha ficado feia.

Tive um filho com minha dama. Henrique. O garoto era especial. Tinha herdado toda a leveza da mãe e a criatividade do pai. Nos amávamos como se fosse sempre o primeiro dia que havíamos nos visto.

Minha preocupação aumentava a cada nova carta. Em cada nova publicação minha, um novo ataque aos meus compatriotas. Era como uma retaliação. Pois me estripava alma.

Uma maldita noite, jamais esquecerei aquela data, 25 de outubro de 1984. Levei Marianna para o clube onde iria se apresentar, deixei Henrique com a avó, e voltei para casa para terminar um novo artigo. Trabalhei durante horas sem ver o tempo passar. Minha máquina de escrever triturou por horas minhas palavras ideológicas naquele papel. Era meu artigo mais bem escrito e expressivo.

Ouvi um estrondo. Ensurdecedor. Mesmo sendo do outro lado da cidade. Meu coração rachou assim como as paredes. Vi a poeira subir e as sirenes tocarem. Peguei meu carro e saí cortando o trânsito. Larguei ele aberto e corri pra porta do clube onde Marianna se apresentava. As cinzas e as paredes pareciam chorar. O caos era como um silêncio. Gente correndo, sangrando, morta ou despedaçada.

Perguntei por Marianna para todos, até que Emanuel, dono do clube, aos prantos me dá a notícia. Ela havia morrido. Meu anjo latino fez sua passagem de uma maneira violenta.

– ¡Lo siento mucho! Pero está muerta. Está muerta, hermano. Lo siento mucho. Fue una bomba. No sabemos si fue la guerrilla o el propio gobierno (Sinto muito! Mas está morta. Ela está morta, irmão. Sinto tanto. Foi uma bomba. Não sabemos se foi a guerrilha ou o próprio governo).- me dizia chorando.

Paralisado. Foi como fiquei. A notícia já tinha corrido até minha sogra e Henrique. Tudo estava descolorindo. Exílio, o paraíso tropical, meu país natal, nada e nem ninguém estava livre. Violência e morte por todo lado que cerca o poder.

Liguei meu carro e dirigi até a praia. Chorei olhando a lua que nunca mais poderei compartilhar com Marianna. Tantos anos no mesmo lugar e sempre a perseguição me encontrava.

Voltei pra casa. Sentei em frente a minha máquina de escrever e rasguei minha raiva no final do artigo. Bebi o que podia e apaguei.

O funeral foi uma tristeza só. Arrastado e doloroso, como uma faca que atravessa e se retorce no seu rim. Lhe deixei um ramo de rosas e todo meu amor em sua lápide que fiz questão de escrever: “amor de mi vida”

Passaram-se os dias e mais cartas. Meu artigo havia sido publicado. E nem o governo de Cuba havia gostado de meu desabafo. Então, novamente um bilhete em minha porta: “tens 24 horas para deixar o país e voltar pra sua terra natal.”

Henrique estava com sua avó. Passei por lá e lhe expliquei a situação. Prometendo que viria buscá-lo em breve, quando tudo estivesse mais calmo, para lhe apresentar ao Brasil. Peguei novamente um barco e atraquei em Santos. De lá um amigo me trouxe para São Paulo. Me deixou em meu antigo apartamento. Subi aquelas tristes escadas e o passado adentrou comigo pela porta da habitação. Estava lá, tudo bagunçado de quando os militares foram me procurar. Minha máquina de escrever ainda permanecia intacta. Apenas com um bilhete: Não volte mais aqui.

Ignorei tudo e me debrucei sobre a máquina. Escrevi por horas tudo que passei e sofri. Não queria ser um mártir ou um herói, apenas expus o cotidiano que impede a todos nós, sem exceção, de sermos livres, terminando a mesmo mesmo com um poema:

Balas llueven sobre el tejado Desatar los nudos de mi escondite Mi puerto seguro fue bombardeada Llevando consigo mi crucero Fue años en la isla exilio y la pasión Todo en vano. Contar las notas Los cuerpos en el suelo Poco profunda es mi amor A 7 pies de existencia No hay una creencia de que borrar la herida Y no hay ideología Eso me hace creer Que hay que ser La libertad en la vida.

(As balas chovem no telhado Desatando os nós de meu esconderijo Meu porto seguro foi bombardeado Levando com ele meu cruzeiro Passaram-se anos na ilha Exílio E paixão Tudo em vão. Contam-se as notas Pelos corpos ao chão Raso ali está meu amor A 7 palmos da existência Não há crença que apague a ferida E não há ideologia Que me faça crer Que ha de se ter A liberdade em vida.)

Ponto final. Em breve relato deixo talvez minhas últimas palavras. Já escuto os coturnos ricocheteando pelos degraus. Um último gole antes das algemas. Pelos falsos anos de liberdade pagarei com sangue minha pena. Deixo-vos aqui com a triste afirmação: O mal da humanidade é viver uma ilusão de liberdade. Estouraram minha porta….

Yuri Cidade

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