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O último beijo da noite

Nas gotas de uma chuva sem vergonha, as demais tragédias derrubavam as folhas, entupindo as calhas meu dia, de falsas esperanças. No correr de uma criança, vejo minha infância se dissipar no moedor de lembranças, aventuranças e inocência, da qual já nem disponho mais. Vejo tudo, enxergo nada, absorvo o que posso e vomito 3 vezes ao dia. Frias noites, como essa gelada chuva, são os encantos do esquecimento. As paredes de cimento, o teto de gesso e o caixão feito de recomeços que terminaram. Fracassaram, como tudo um dia fracassará. Expedi meu alvará de soltura crítica, driblando as estatísticas, resumindo-se no olhar perdido que analisa ao redor e não conclui nada. Minha garganta seca e me faz implorar pela próxima dose. A vida hoje me parece tão doce, quanto a glicose de um domingo ensolarado. Nos meus dedos, as simplórias ferramentas do meu cérebro. Viajo mundos, atinjo pessoas, mas não sinto suas almas tão perto quanto sentem minha respiração ao soletrar essas orações neste momento. As únicas opções que tenho, são meu vocabulário sujo e o saber imundo de um profano poeta, habitante de um mundo o qual parece não ter fundo quando se despenca de seus abismos. Amante do cinismo e dos prazeres carnais, uma dama se desfaz diante dos meus olhos, trocando meus óbvios pela única certeza de todo ser: Vou te devorar com todos os meus sentidos. Minha vida se resume em pequenos traços delicados e femininos a me encantar ao ponto de realmente acreditar em sua vã entrega. A mil léguas ou a quatro dimensões acima ela se encontra, quem sabe na ponta do iceberg o qual meu navio pelo jeito não irá naufragar. Deixo acontecer. A vida será sempre meu monólogo silencioso, gritado em minhas páginas. Sem plateia, sem povo, sem aplauso, só mais um causo, uma crônica, uma cerimonia pro melhor escritor não lido do mundo. Profundo, escuro e vazio, como um ônibus às 3 da manhã, como eu, quando se aproximam os pontos finais de uma frase. Ser palavra é ser sentido, foneticamente ecoado por vozes mudas do mito de que sou realmente entendido. Eu sou apenas uma lenda. Um folclore da cultura dos sem voz. Rodeado de poetas, mas sempre a sós. Ao pó um dia serei suprimido. Espremido, me encontro entra estas frases, terminando a fases que venço em cada tragada. Escadas, gente, elevadores e corredores ainda mais acelerados que seus transeuntes. Parecem gritar : EXPULSEM QUEM ESTA SÓ A OBSERVAR! Quem muito divaga, acaba ficando louco aos poucos. Não tenho pressa de perder a sanidade. Devoro todas as classes e regozijo o veneno na minha boca. Não me calareis nos livros e nos muros. O puro poeta de mente, de corpo e de espírito. Livre em cada livro, poema, relato, traços e até mesmo os tragos e as baforadas. Sou filho da vida e do saber boêmio, e neles fiz minha morada. Estaticamente consumido pelo estado filosófico, percebo meus olhos estão fixos e arregalados, impressionados com o que somente meu cérebro pode ver. Desliguei a TV, apaguei a luz e só senti o perfume dos meus incensos recém queimados. A névoa se desenhou na imensidão escura da visão. Ao som dos trovões, só consegui pensar: A fumaça dos meus cigarros coloridos, é um pincel atômico de ilusões.

Yuri Cidade

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