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O último gozo

Como era linda. Naquela tarde, a mesma lembrança cruzou minha mente. Durante anos foi o mesmo calvário. Sentado naquela poltrona, de frente pra janela, dedilhava o violão, improvisando mais uma em homenagem a musa de minha juventude. O timbre doce e melancólico, preenchia os cômodos da casa, ecoando a solidão de um velho boêmio. Senti falta do meu universo antagônico juvenil inconsequente. Das bebedeiras, das farras, das mulheres, mas nada disso preenchia-me o vazio que ela um dia encheu. Nada se comparava a falta que aquele par de olhos castanhos esverdeados me fazia. Suas diversas faces mesclavam-se com os sambas e os blues que compus durante anos, com o mesmo frenesi com que eu misturava conhaque e cigarro. Ela sempre havia sido além do desejo. Era um imenso planeta que havia ficado numa ilusão distante. Ainda na mesma posição, rasguei as notas naquelas velhas cordas de aço, como alguém que abre o peito para finalmente livrar-se da agonia. Deslizando meus dedos sobre o violão, ao fechar os olhos um clarão me fez abri-los. Sua silhueta brotou apoiada no contorno da porta do quarto. Meus olhos incrédulos não acreditavam no que se revelava diante de mim. Feito um náufrago que avista o resgate, meu peito se encheu de alegria, pouco se fodendo pra lucidez. Vestida apenas a velha camisa que pegava emprestada de mim cada vez que dormia em meu sobrado, ela sorriu e tudo dispensou sentido. Seus cabelos reluziam a luz que se esgueirava pela janela do fundos, dando a ele um tom de divindade. A cintura fina, os seios macios e redondos apontando seus mamilos duros pelo tecido, revelavam seus desejos mais carnais enquanto abria botão por botão. Com as retinas travadas, assisti seu olhar penetrar no meu enquanto ela tirava a calcinha delicadamente, perguntando: – Vai ficar só olhando? – soltando seu risinho travesso de quem sempre está afim – Vai ficar tocando esse violão velho? Temos pouco tempo. A melodia aumentava o volume de uma maneira crescente e expansiva. As cordas vibravam sozinhas. Ensurdecia meu ser, assim como ela cegava qualquer parte do meu cérebro que tentava me alertar de que aquilo era impossível de acontecer. Já se faziam tantos anos, tantos caminhos distintos que nos deixaram em plena contramão. Mas ela estava ali, não havia mudado nada. Não me contive, e me atirei sobre sua pele. Beijei-a da cabeça aos pés, enquanto arrancávamos as roupas. Sua língua parecia um veludo, deslizando por minhas terminações, criando arrepios que geravam cores e sons. Nossas sombras na parede dançavam na mesma intensidade com que a música, vinda do violão, aumentava em cada novo toque. Sua boca agia como um maestro regendo a orquestra. Suas unhas penetravam em minha pele, exalando desejo e pondo mais fogo entre nós. Senti novamente aqueles doces lábios em volta do meu membro enrijecido, latejando de tesão, como em anos não o sentia. A sensação era de que estava mais jovem, forte, viril e principalmente vivo. Pude enxergar toda aquela juventude correndo pelas minhas veias e poros. Me afoguei em seus peitos, chupando, lambendo, mordendo, delirando enquanto aquela música se elevava e dava ritmo a transa. A gargalhada dela ressoou junto a melodia ao sentir cócegas quando passei meus lábios por seu abdômem. Lambi sua vagina escorrendo de tanto desejo. Senti suas costas arquejarem, até que a mesma não aguentou de tanto tesão e me fez rodopiar pondo-me para baixo de suas pernas. Montou e remexeu delirantemente ao som daquele blues, quebrando a barreira do som e da vida. Pude ver os vidros estilhaçarem conforme nossa pele estalava durante o ato. A música estava tão alta que se não ouviam seus gemidos. Apenas assistia sua boca balbuciando palavras e gracejos enquanto trepávamos. De repente ela aumentou o ritmo, subindo e descendo sem parar. – Não vou aguentar! Vou gozar! – dizia eu apertando suas nádegas. Ela aumentou a velocidade, assim como a música subia de tom. Em pleno delírio, gozei! Mas meu gemido não saiu. Nem um som, nem um clique sequer. Meu mundo havia se calado no mesmo instante. As cordas do meu instrumento arrebentaram uma a uma, indicando que minhas linhas vitais haviam cessado. Arregalei os olhos, minhas mãos fraquejaram e o cigarro que havia em meus lábios, suicidou-se no silêncio do tapete da sala. Morri gozando o passado.

Yuri Cidade

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