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O limite da fé

Em uma das minhas viagens, fui levado com um grupo de jornalistas a um mosteiro, onde abrigavam freiras e aspirantes a padres, sob a tutela do Bispo Mário. Era um senhor de 60 e poucos anos, com os olhos claros e uma pele branca e enrugada, passou a vida toda nesse mosteiro. Nossa missão era documentar a vida na clausura e as benfeitorias que o templo fazia para a região. Nunca fui de confiar na igreja, tampouco frequentá-la, mas nessa sistema capitalista, a ideologia sucumbe quando a necessidade de trabalhar bate na bunda.

– Sejam bem-vindos, nobres amigos. – dizia o Mário, abrindo as portas centrais do templo. Uma espécie de construção de pedra antiga, com duas torres mais altas e uma área de mais ou menos 500 metros quadrados.

As alas do lugar eram divididas por portas com grades pesadas, visando evitar a mistura entre homens e mulheres sem autorização ou fora dos locais de convivência comum. Isso me incomodava um pouco, visto que odeio limitações. Mas logo fomos apresentados a nossos aposentos. A equipe jornalística era formada por 3 pessoas: eu como redator, Osvaldo atuava mais como um entrevistador, exercendo as relações interpessoais e Jorge era o fotógrafo. Já éramos velhos companheiros de batalhas jornalísticas, estávamos acostumados com essas viagens e estadias em locais anormais, se comparados ao cotidiano de um jornal.

-Porra. Que lugar esquisito e chato. Acho que nunca fomos mandados pra algo tão monótono. – Reclamava Jorge, enquanto ajeitava sua cama, em nosso alojamento.

-Verdade. – Concordava Osvaldo. – Vamos encerrar isso o mais rápido possível. Qualquer coisa, a gente inventa uma desculpa pra ir à cidade e relaxar um pouco, se é que me entendem.

-Feito! – apertamos as mãos.

Logo pela manhã, tivemos que acordar antes mesmo do sol nascer e acompanhar o culto e as orações matinais, em jejum, das freiras e seminaristas, todas comandadas por Bispo Mário. Entretanto, logo notei que as mulheres eram lideradas por uma freira de olhos firmes e pele de um tom bronzeado, tinha no máximo uns 42 anos. A maioria delas restringia-se a olhar sempre para baixo, evitando qualquer tipo de contato visual com os demais integrantes do mosteiro.

– Essa é a Irmã Irene, meus amigos. – dizia Mário, apresentando-nos a tal freira. – Ela é responsável pela ala feminina desse lugar e de manter o equilíbrio.

Todos fizemos uma reverência à mulher e ela respondeu:

-Bendito sejam os planos de Deus.

Ficamos muito contentes em ter nossa história documentada por vocês, cavalheiros. Os propósitos sagrados merecem toda a atenção. Achei aquela ladainha um tanto chata, mas não poderia julgar, visto que jamais deve-se condenar a fé alheia. Assim, o dia se resumiu em documentar e acompanhar a rotina do lugar. Entediante, por assim dizer. Era quase sete horas da noite quando finalmente terminamos por aquele dia. Seriam mais uns 4 ou 5. Então, precisávamos sair um pouco daquele lugar. Fui até a sala de Bispo Mário, para inventar uma desculpa para irmos até a cidade, visto que meus companheiros me elegeram o melhor mentiroso.

-Boa noite, Bispo. Desculpe o incômodo.

-Boa noite, irmão. Em que posso ser útil? Estão precisando de algo?

-Sim… Precisamos ir a cidade rapidamente, pois as correspondências não chegam até aqui e necessitamos colocar nas caixas postais da cidade, parte dos documentos de hoje. – balancei uma pilha de papéis qualquer que havia pego em minha bolsa.

-Entendo. Vocês irão demorar?

-O tempo necessário. Haveria como alguém abrir pra gente um pouco mais tarde?

-Vou deixar avisado para os sentinelas da noite sobre sua chegada tardia. Mas tentem não abusar.

-Obrigado, Bispo. Pode deixar.

Rapidamente peguei meus companheiros e partimos. Logo chegamos a cidade é sentimos o ar mais urbano, apesar de ser um município pequeno, inundar nossos narizes. Andamos até achar um boteco, que na realidade também funcionava como puteiro. Um letreiro no canto do bar anunciava: Esta noite show com Lady Shirley. Pegamos uma mesa mais ao canto do pequeno palco improvisado.

Passados algum tempo, as luzes diminuíram e uma figura fora surgindo por entre a névoa, produzida por uma máquina de fumaça velha. Uma voz feminina encorpada e sensual, cantarolava um soul americano. Ela trajava um vestido azul cintilante, adornado com algumas pedras cristalinas. Seus movimentos agiam como um objeto hipnótico, dançando no ritmo de sua voz. Osvaldo e Jorge estavam pouco se fodendo para o show. Já haviam arrumado algumas meretrizes que se encontravam no bar. Uma delas até tentou puxar minha atenção, mas meus olhos só conseguiam fixar em Lady Shirley. Aquela mulher madura, determinada e com a presença mais estonteante que já havia visto. Há cada término de canção, eu soltava uma saraivada de Palmas. Isto fez que com que a atenção dela se voltasse para mim também. Fez sua última canção, olhando diretamente pra mim. E no fim, quando homens atiravam notas de dinheiro em do palco, ela piscou pra mim e retirou a parte de cima do vestido, deixando a mostra seus volumosos e naturais seios de uma mulher cheia de histórias. Então, ao encarar seus olhos claros, percebi que Shirley era na verdade Irmã Irene, a freira responsável pela ala feminina do mosteiro. Quase cai da cadeira. As cortinas desceram e sai correndo para encontrá-la nos bastidores. Para minha surpresa, Ela estava sentada, ainda sem a parte de cima do vestido, tomando uma dose de gin e fumando um cigarro. Olhou para mim, sorriu e falou:

-Estava lhe esperando.

-Mas…Mas… Como assim, Irene?

-Shirley! Irene não existe aqui.

-Como você consegue sair de lá? E por que você ainda está lá? Sua voz é tão linda, assim como sua performance. Porque não larga essa vida de clausura?

-Pobre homem. – E riu. – A maioria das freiras não está lá por vontade própria. É sempre alguma longa história, envolvendo família ou uma promessa imbecil. Assim, minha triste história é a da moça que com 16 anos, se apaixonou por um garoto, os dois viveram uma intensa história de amor juvenil, e ela engravidou. Ambas as famílias desprezaram tal acontecimento e separaram a gente. Ele foi mandado pra escola Militar na capital e jamais sairá do exército. Quanto a mim, a menina sonhadora que almejava viver amores, criar seu pequeno, cantar, dançar, respirar, fui violada por um médico açougueiro, que arrancou meu filho de minhas entranhas, posteriormente sendo mandada para este convento, isolada de tudo.

-Puta que pariu! Que horror!

– Com o passar do tempo, descobri métodos de conseguir autonomia suficiente dentro do templo para sair facilmente. Durante esses anos, vivo como um personagem de folclore, o qual denomina-se Lady Shirley. Realizo minhas fantasias e desejos na penumbra dos bordéis e botecos baratos. Mas comparados aquela prisão, é como estar no boulevard. Se eu fugir de lá, a coisa torna-se ainda pior, pois a igreja e minha família irão me caçar e talvez até me queimar como bruxa em uma fogueira.

-Tá, mas você acredita em Deus?

-Sim. Ele é o meu corpo e minha mente livres quando assumo o papel de Shirley. No resto do tempo, sou apenas uma alma penada vagando pelo limbo. Agora preciso ir, antes que sintam minha falta. – sorriu e beijou meus lábios de leve. – Você é um amor. – E saiu.

Tentei segui-la, mas quando cheguei na rua, um carro preto tinha pego ela, e não parecia ter sido voluntariamente. O automóvel seguiu na direção da estrada do mosteiro. Achei um táxi e pedi para que me levasse de volta, deixando Osvaldo e Jorge para trás. Quando finalmente cheguei ao templo, vi o carro negro saiu e movimentos de alguns lampiões até uma capela que havia atrás da construção maior. Fui me esgueirando até Uma das janelas. De lá, vi irmã Irene despida, tentando esconder seu corpo com as mãos, aos prantos. Na frente dela, Bispo Mário com uma vela em suas mãos.

-Quer dizer então que a nobre Irmã Irene, na verdade é uma puta chamada Lady Shirley? Prova disso, puta! – Derramou cera quente no corpo dela, que rugiu de dor.

-Por favor, Bispo, pare! Eu juro que não sairei mais das regras de Deus. Foi um momento insensato.

-Cale a boca, Vagabunda. Receba sua pena! – pegou a mulher pelos cabelos e colocou-a com as mãos apoiadas no altar.– Provarás o castigo divino! – E desceu o chicote nas nádegas da freira.

Aquela tortura durou alguns minutos, eu estava imóvel, sem saber o que fazer. Procurei algo que pudesse servir como arma, mas nada havia por perto. Olhei novamente pela janela e Irene chorava ainda mais. As marcas do chicote em sua carne estavam roxas, mas ela não gritava mais. Apenas lágrimas escorriam de seus olhos.

-Agora saberás o que perdeste neste anos todos enquanto me rejeitava. – o filho da puta tirou seu pênis para fora da batina e tentou penetrar na freira. Mas ela reagiu. Parece ter tirado forças de onde não havia.

-Não. Você não vai me violar! Aguento todo o tipo de castigo hipócrita e doentio, menos a violação de um Bispo sádico e mentiroso.

-Mas não faria diferença nenhuma pra você, não é mesmo? Já se deitou com tantos homens durante os anos.

-A diferença é que com todos que trepei, foi porque eu quis e não por obrigação. – E cuspiu na cara do sacerdote.

Neste momento entrei e pulei em cima dele, mas no mesmo tempo fui atingido por uma pancada na cabeça. Ao cair vi que haviam duas sentinelas que guardavam o bispo. Também pode enxergar os olhos da freira encarando os meus, reconhecendo meu ato idiota, como o de um herói desesperado. Adormeci.

Acordei em um hotel da cidade. Osvaldo e Jorge disseram que fui expulso do mosteiro porque cheguei bêbado e tentei brigar com um seminarista. Tentei lhes contar a versão real da história, Mas ninguém acreditou em mim. Por fim, disseram que eu havia bebido demais e estava apaixonado por uma freira e uma puta ao mesmo tempo.

Voltei pra minha casa na capital, e alguns meses depois recebi uma carta sem remetente. Nela apenas estava escrito:

“Obrigado pela coragem e por manter vivos os meus sonhos. Fui enviada para o Vaticano, para que jamais minha história tome forma. Quem sabe um dia voltemos a fazer um dueto. Shirley.”

Foda. A santidade não tem nada a ver com comportamento, mas sim caráter.

Yuri Cidade

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