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Quanto vale o preço?

“O que a serpente é pra maçã, é o que a maçã reflete pra mídia” (Criolo)

Distante. Me sentia longe demais para ser conhecido. Despercebido, caminhei entre as árvores, com seus galhos curvos e pontiagudos. Era escuro. Frio como as trevas de julho. Barulhos, sonetos sinistros cortavam meus ouvidos. Por onde teria perdido meu bloco de poesias? Reprimidas, as palavras não quiseram mais sair. “Eis me aqui, nobres irmãs. Vamos, passem a desabafar sobre meu divã.” Mas nada. Minhas pacientes continuavam caladas, não dizendo absolutamente nada sobre o tudo que lhes cercava. Não via mais a estrada. No grito de socorro, até eu fiquei mudo. Um distúrbio se pondo a rir da desgraça de um poeta imundo que já não podia mais expressar. Chorei, e nem mesmos as lágrimas puderam quebrar o silêncio. Meu cérebro continuava denso e tenso. Minha língua balançava na boca tão vazia quanto minha cabeça. A dor de enxergar tudo como simplesmente era, me importunava tanto que me fazia acreditar que não ha nada de espanto na vida de um santo. Sentei-me num canto à escuridão de um eucalipto. O perfume doce do seu instinto já não me instigava nada além dos meros sentidos. Fictício. Meu conto mais preciso tinha virado um livro de páginas em branco. Nada. Vazio feito minha garrafa de uísque. Até mesmos meus cigarros já haviam se suicidado. Era somente eu, minha abstinência, e a indecência de ver o mundo como todo mundo. Não havia mais profundo. Eu era raso como uma poça. Já não dedicaria mais meu boêmio amor às moças daquela vitrine. A estirpe tinha se tornado a sarjeta poética, onde são tão baixas às idéias, que não vale a pena serem lidas. Desisti. Ofeguei e me rendi à realidade. “Vocês me venceram, e já não posso mais lutar contra tanta superficialidade.” Me emudeceram, me calaram, me deixaram alheio ao próprio poema. Mas como todo artista, dei risada do problema e passei a escrever mentalmente meu dilema. Não há quem resista o poder da individualidade de um poeta. Pois de formas discretas, conseguia já visualizar a próxima obra. As cobras matam com os dentes, mas morrem pela língua. E como numa fábula bíblica, a serpente surgiu para tomar satisfação do porquê eu já não sofria mais com a indiferença:

– Qual o problema? Já esquecestes que nunca lerão seus poemas?

– Ah, minha irmã. Minha vida é trocar a noite pela manhã. Deixar que minhas palavras vãs, preencham o meu vazio e não o de alguém tão vil, que nem ao menos se dá ao trabalho de poetizar a própria vida. A solução pras minhas dívidas, é este copo de bebida que acabo de encher. Pra você ver, nem todo mundo quer aparecer na TV.

– Mentira. Teu ego ainda persiste mais inflado do que nunca. As tuas perguntas são apenas desculpas pelo seu fracasso. Afoga a vida em um maço, mas é capaz de respirar mergulhado no descaso?

– É verdade. Meu ego é gigantesco, tão dantesco que ouso a recolher-me a mim do que me entregar a ti, pois se de mim queres um preço, eu te digo que não me vendo por apenas um começo. Eu quero te comer pelo meio, destroçar teu fim e transformar toda sua superficialidade numa profunda dúvida de mim. Já diria o poeta assim “Mas se eu não existo, por que cobras de mim?”

A serpetente enfurecida pela indiferença que lhe apresentei, mostrou as presas e silvou ferozmente:

–Nunca serás visto, lido ou falado, meu caro. Ninguém saberá teu trabalho, será uma vergonha poética sem legado. Ainda assim resistirá à minha oferta?

– As portas sempre estarão abertas para quem nelas quer entrar. Meus passos podem demorar, mas um dia irei chegar no andar do rebolado dos meus poemas. Se és tão sucedida, por quê eu seria seu problema?

A serpente sem resposta atacou, e eu deixei que ela me mordesse. No tocar dos seus dentes, engoliu meu veneno. E em goles pequenos, se afogou, tossiu e sumiu aos gritos. Eu, ferido, joguei uísque nas marcas. A ardência me cortou o corpo, sendo que no fim, novamente achei conforto em mim. Assim, voltei a achar o caminho de casa. Cruzei a estrada e me encostei num posto. Pedi um café amargo. Bebi silenciosamente e ao sair deixei um rabisco para o dono do bar: “pendure a conta, que hoje o meu preço nem a serpente conseguiu pagar.”

Yuri Cidade

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