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Remédio Ilusório

Incrédulo. Desafio a própria sanidade. Despejo aqui, porções de sinceras mentiras.

A vida é boa. É ótima. Principalmente quando abro a porta e sinto o gosto de escapamento furado que o dia me traz. Uma bagunça que parece até organizada simplesmente para andar. As pessoas caminham tão rápido dando a impressão que esteiras às levam para seus respectivos destinos. Possuem olhos. Mas não enxergam nada além da tela de seus Smartphones. Parece que acordo em um pesadelo. Nem o Neo de Matrix poderia imaginar tal controle invisível que molda as almas. Corrompe os filhos da terra. Sucumbe à si até o mais forte dos seres. Tudo vigiado. Enxergam-nos e rapidamente mudam nosso foco. A estratégia é essa. Perda do foco. Funciona feito hipnose. Tudo que você gosta ou deixa de gostar é causado por pequenas opções que incrustam em nossos cérebros. Beirando a loucura, rimos. Desafiamos a rotina para nos sentirmos vivos.

Corro para um lugar com vento, árvores e despretensão. Chego a um parque. Tranquilo. Crianças brincam. Pessoas ostentam o ócio. Pois hoje desfrutar disso é somente para uma parcela de pessoas de um certo patamar econômico. Estão ali como se habitassem o próprio Éden. Pena que o jardim da Paz é só no nome. O empresário ali que não pagou a prostituta no morro, vai ser esfaqueado pelo filho desta. Ele ao ver a mãe sem dinheiro pra pôr comida na mesa pro restante da família, tratou de dar seu jeito. Filho mais velho. Vira homem aos 16. Claro que vai ter passeata do condomínio fechado pedindo paz e cadeia pro favelado. Comparecerão só gente “importante”. Seus amigos políticos que lhe davam licitações em troca de propina, suas várias amantes, o condomínio inteiro que sonega imposto e por fim o maior pastor do estado vai dar suas bênçãos para que cheguem aos céus por apenas 20% do seus rendimentos. E aí o jardim da paz vira jardim de sangue hipócrita que escorre pela calçada por onde disparo pra qualquer outro lugar. Prédios e mais prédios me engolem. As ruas são lotadas. Me afogo como se estivesse num oceano profundo sem noção de onde está a superfície. A paisagem cinza é criada pela pesada fumaça do ônibus que está quebrado naquele ponto onde mais de 20 pessoas esperavam para irem trabalhar. Hoje aquela moça vai faltar ao serviço. E terá que andar quase uma hora pra voltar pra casa. Amanhã ela vai ser demitida por justa causa por um patrão que a assediava todos os dias quando a sua esposa não estava olhando. Já tem outra contratada. Ela ficará encarregada até de servir na festa de bodas de prata que ele completa com sua digníssima esposa. O prefeito ligou de Las Vegas avisando que não há mais verbas pra manutenção do sistema de transporte viário da cidade. Foram feitos grandes investimentos em áreas mais urgentes. Daqui a uma semana ele volta e inventa uma desculpa melhor culpando o Governo do estado. Que irá colocar a culpa no Deputado, que culpará o Senado que culpará o Presidente que culpará você. Um dedo enorme apontado jogando na nossa cara de vergonha a verdade que o brasileiro tanto odeia ouvir. “A CULPA É SUA!” E de fato é mesmo. Mas em questão de segundos o sistema transforma a frase em: “A COPA É NOSSA!”. Pronto. Mágica. Agora todo mundo abraça essa culpa. Anestésico em forma de festa. Ilusão de uma massa inteira. A amnésia coletiva.

Já é tarde. O dia irá acabar. Mas a festa continuará. Sentado aqui escrevendo resisto um instante a mais a ilusão. Minto pra mim mesmo para continuar vivo. A última olhada pra rua. Carros, gente, bicho, tudo aquilo sobrevivendo a mais um dia. Escuto ao fundo um Cazuza desafinado gritando: EXAGERADO! Talvez deve ser isso que ele quer me dizer. Exagere nas pequenas coisas da vida para no fim ter forças para fingir que a vida foi boa.

Yuri Cidade

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