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Rasgando os dias, meu cotidiano flui e se institui ao arrancar mais uma página do meu calendário. Diluo meu analgésico favorito em uma dose de uísque e nas páginas do meu pequeno caderno de confissões. Poetizando a vida, sigo na ilusão de sua ira, força e reviravolta, infinitas voltas, da terra que me faz humano. Mundano e rumo à morte, deliro e permito a fuga da sobriedade, para num estado abstrato, concretizar as perguntas e as teorias mais ínfimas e específicas sobre meus próprios demônios. Refém dos instintos e dos meus vícios, alego em minha defesa: Nada. Não sou culpado e tão pouco suspeito. Pelo tempo, o maior respeito, mas atravesso um rio de pecados, se for o necessário para abrir meu peito. Expressão foi a forma que encontrei de por meus dias em movimento, fazendo da minha existência, fragmentos de momentos, longos ou pequenos, porém intensos. Sem lamentos, engulo sapos e cuspo veneno, pois não seria humano se fosse correto. O mais perto do teto é sempre rente ao chão! Mundo cão, vida cigana, mente insana, miraculosa trama. O que vi da vida sem sair do meu lugar? 25, 35, 95, qual será o número que completa minha cartela? Não nasci pra sorte do bingo, e nesses tempos de jogos de azar, aprendi que na vida há de se ter ousadia e pedir truco, ficando no limite entre o fracasso ou o sucesso, pois não há lugar suficiente para todos ficarem em cima do mesmo muro. No escuro, projeto na minha mente uma tela de cinema, que reprisa todos os meus dias até estas exatas palavras. O que eu vejo? Volto a afirmar: Nada! Participei de tudo, mas me escondi no vazio, dando a impressão para o restante dos habitantes, que não existo. Às vezes até esqueço de existir. Hesito somente em me calar, pois no que consiste falar, as palavras simplesmente saltam de mim. Sou escravo da minha criatividade, delirando minha vida sem graça em um texto categórico, puramente vaidoso de quem se considera o centro do universo. Sem arrependimento pelo egocentrismo, pois não há abismo maior do que não ser eu. Não disperso e nem me abstenho, dar um nó em você é no que mais me empenho. Homem, brasileiro, errante, humano, geminiano, dramático e exagerado, realista do irreal, extingui os conceitos de bem e mal, e no meu mundo teatral, é a vovozinha quem come o lobo mau. Da vida desconheço o motivo, entre verbos e rabiscos, pinto meu ser através dos meus sentidos, declamando um monólogo silencioso para minhas paredes. “O que vedes, Yuri? O que vedes?” Todo o meu ser transparecido em cada letra rabiscada. Em cada artigo uma emoção, e em cada ponto final, um começo para outra frase. Assim é como enxergo a minha vida: Um enorme caderno por onde escrevo minhas virtudes e assombrações, que um dia chegará ao fim de suas folhas, restando somente uma capa velha e dura. Porém, em cada uma de suas linhas, um sentimento, por vezes desconexo, mas sempre aberto a traduzir minha real existência. Meu diário é meu ser que se registra na sua mente por estas palavras. Aqui vou encerrando mais uma página, um capítulo, um prefácio. Faço drama, rolo na grama, dou risada da desgraça, absorvo na autocomplacência os nutrientes cerebrais necessários para manter minha insanidade. Eis todo o mistério do que sinto: uma tragicomédia brasileira com apenas  vinte e cinco.

Yuri Cidade

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