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Autobiografia de um desconhecido

Devagar ao léu, caminho sem nexo. Desconectando meus fios do senso comum, não me sinto só mais um, e sim o um, o único, singular e livre de tantos plurais conjugados da mesma palavra em sentidos diferentes. Minha mente trabalha dia e noite, no açoite me acolho e aceito meu castigo de ser dividido entre razão e emoção. Derramo meus sentimentos em teorias aplicadas mais filosóficas do que realmente são. Categórico como um templo de Salomão, vejo apenas o vão entre verdade e ilusão, sendo sugado por um buraco negro sem fim, sem destino ou caminho certo. Sem mapas, bússolas ou qualquer outro instrumento de navegação, entrego-me ao vasto oceano de ideias, navegando sem noção do que irei avistar no final da jornada. À minha alçada só cabe a busca, sem determinar resposta, propondo apenas a pesquisa e não a cura. Não há mal pra ser curado e nem bem pra ser protelado, apenas meu maior vazio experimentando em cada dose, um sentimento diferente do que senti no passado. Minhas memórias são feito um livro de fantasia, em que diversas vezes até esqueço de situações vividas. Minha dívida nunca será paga. Inadimplente de padrão, me fiz somente o cão, o andaluz, o enfermo, o desviado mentalmente procurando nas formas abstratas, enxergar meu verdadeiro retrato. De fato falo muito, sem qualquer tipo de intuito, tão somente na vontade de expressar, gritar, escrachar meus demônios bem na cara de quem lê minhas frases gritando em seus olhos. Nunca calmo, sempre intuitivo, permaneço, observo e ativo todos os meus instintos para fim de me defender de algo que desconheço. Segurança própria é coragem! Coragem da certeza de expurgar minha existência, coragem de mostrar pro mundo o que escondo no sorriso de canto de boca quando uma piada sem graça é contada. Dou risada da morte, me arrisco nos mares mais profundos e bato no peito com orgulho a fama de vagabundo. Vagabundeio minha maior procrastinação criativa em cada verso que escrevo, dilatando provérbios, ignorando advérbios e inventando novos adjetivos. Sou objetivo no fato de ser subjetivo, dando a entender de mim, nada mais que uma alma perturbada e confusa. Por dentro, torno a rir de quem me indica o manicômio, pois pra mim isso é apenas um sinônimo de transparência. Aniquilo a decência, a tradição e o pudor, tanto que quando verso sobre amor, retrato meus desejos mais carnais comparando-me à ferozes animais em busca de saciar seu instinto. Não minto, até sou bem romântico, mas jamais um santo de quem se põe a rezar. Não acenda velas no meu enterro, nem ao menos jogue flores, deixar-me também experimentar todos os horrores que a falência do meu corpo reserva no abstrato e solitário episódio que é a morte. Minha entrega é somente a vida, na sua forma mais extrema, pois no dia que partir terei certeza que fiz o que pude para ser o mais humano possível. Por debaixo dos panos, sofro, choro e me lamento por infinitas coisas que devia ter feito ou deixado de fazer. Rasgo-me ao perceber que empreguei ideias errôneas sobre um assunto que desconhecia. Mas em questão de segundos, já volto pro meu mundo e absorvo a realidade que pula minha janela. Engulo o gosto do escapamento, o tráfego parado, o véu de poluição que se confunde com a neblina, e volto a escrever poemas mentais sobre a moça que anda distraidamente com seus fones de ouvidos. Mas percebo que no fim, jamais consigo escrever sobre alguém, coisa alheia ou o um mundo comum de todos os habitantes, tudo que escrevo é somente o mais puro reflexo do meu mundo. Vago, vasto, abstrato e sozinho, como todos os que leram até aqui.

Yuri Cidade

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