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O grito mudo

Dilacero minha carne em pleno sol da tarde. O tempo arde. Dispo-me da pele até as entranhas. Desabo na cama, e me faço por um mínimo lapso, um compasso que rege meus passos rumo ao meu eu. Apogeu. Criação revelada. Cera da vela divina tarrada, escorrida e moldada pelo fogo da minha mente. Me faço presente a você, visando estar rente a mim. Sem fim. Por um triz está sempre minha existência. A vida é, e sempre será, uma corda bamba de um equilibrista cego entre matriz e influência. Eis aqui minha total falta de decência, ou seria referência? Pois me apresento nu para o mundo. Veja só, todas as minhas vergonhas expostas. Nem adianta virar de costas, pois minha imagem permanecerá assombrando sua mente oposta. Desemboca, se desloca, corre, grita, geme e se rende. Assim vive o homem na ilusória da corrida contra seu final. Fechou o sinal. Humano trânsito em transe. Transem, comam-se, devorem-se. Gozem até a última gota de êxtase. Após, vinde a mim, e pergunte-me assim: “De que és feito, Yuri? Por que vives?”. Sou feito de você, de prazer mundano, de vontades que devoram minha sanidade, ou aguçam-na de um jeito que me recuso a retroagir nas minhas personalidades passadas. Incontáveis faces de um incontentável ser que esteve, e sempre estará em movimento. Estado vegetativo não faz meu tipo. Resisto. Apago meus registros, zerando a memória para poder guardar melhores recordações. Se recordar é viver, deixe-me viver para ter o que recordar. Remoer possessivamente uma memória que falhou, nada mais do que se entregar à Hades sem mesmo sua linha ser cortada. Sem nem ao menos estar vagando no rio das almas. O barqueiro dá risada de quem se afoga antes do tempo. O maior oprimido é aquele que por si é esquecido. Infinito! Me entrego a ti! Faça de mim teu escravo, e se eu estiver errado, me prove o contrário. Porém sirva meu copo, puxe uma cadeira e dialogue comigo seus Por quês. Se for pra passar a eternidade, que seja ébrio e filosófico até enlouquecer até mesmo a eternidade, fazendo-na entrar em colapso ao duvidar da própria existência. Nesse mundo de aparências, visto meu nariz de palhaço. Sociedade do aço, concreto e dos maços. Cigarros, dinheiro, propostas, sonhos. O que trazes nos seus vícios? O que sustenta sua vaidade? Na verdade, nem você sabe do que precisa, porém idealiza o que gostaria de ter. Para todos os lados que olho vejo paredes. Mas não as tento transpor, assumo minha total insanidade, como em um cômodo manicomial, e as risco ferozmente, expurgando ali toda minha vitalidade. Palavra por palavra, eu enlouqueço de maneira sóbria, fazendo de mim a mais bela obra da minha coleção de imaginários retratos. Sou refém dos fatos, mas por meio de atos, omito e recolho os cacos, formando em um mosaico colorido, o passado que eu realmente queria ter vivido. Saudade do que nunca houve, mas que se ouve em todos os desejos para cada estrela cadente que cruza o céu da sua boca. Nunca fui fácil de compreender, porque trago tudo no abstrato para fugir do conceito de certo e iludir-me de que nada foi em vão. Pelo vão da porta já entra a luz de um novo dia. Louças a pia e novas vidas para descobrir. Eterna rotina de abrir os olhos ao acordar e se perguntar: Onde é o meu lugar?

Yuri Cidade

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