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Jorge, um brasileiro

Estático, Jorge navegava em sua minuciosa caneta esferográfica azul. A chuva eclodia na janela daquela maldita sala de aula, embaçando os cabelos ruivos que chegavam a galope em sua atmosfera transversal clandestina. Dentro de sua cabeça, a música brega de Wando teimava em tomar conta de sua atenção. Diante de si, dividia-se em dois e multiplicava seu desejo de devorar metade dos seres que habitavam as malditas cadeiras verdes ao seu redor.

O som de Wando estava cade vez mais alto, como se fosse possível aumentar volumes com a força do pensamento, que vivia entupido de manuais cotidianos. Até mesmo um backing vocal fora do tom tentava tirar o brilho da melodia hipnótica que distorcia sua percepção de realidade, fazendo de si mesma apenas um eco repetido. Porém, a música chegava ao fim e do mesmo modo a noite, a semana, o mês e os cigarros.

Iria sair para comprar cigarros, mesmo sabendo que não haveria nenhum local aberto. Era uma desculpa. A primeira do último minuto, porém era somente uma das várias que faria pra si, afim de saborear a sorte do auto-engano necessário. Internamente inquieto, acendia seu cigarro imaginário, tragando sua fumaça de criatividade que pulava nas páginas de seu caderno velho. Era seu jeito de fugir do caos. Mas quase desistindo de sua fuga, Jorge disparou com seu cérebro rumo a Terra do Nunca.

Porra! Terra do Nunca é foda: Várias luzes, mulheres, planetas e músicas dançantes. Não havia mais Wando. Não havia mais Beatriz. Camila era passado. Débora era passado. Ana mal passada. Carol bem passada. Restava Alice, brilhando com todas as cores cromáticas, deixando o mundo inteiro cego. Ela seduzia suas loucuras. Então, no desatino de seus desejos, todos motivados pela presença de Alice, Jorge perdeu o seguimento das frases, terminando sua história com: “Puta que pariu. Alice é uma deusa.”

De repente, a natureza se transformou em um bar. Alice, maravilhosamente sem rodeios, portando um taco de sinuca na mão esquerda, chegou até Jorge e perguntou:

-Topa?

-Pode ir escolhendo o local da bola 8. Já ganhei. – rebateu Jorge como se estivesse com o troféu em mãos.

Ela, com um sorriso de pequeno demônio no canto da boca, arrumou as bolas em forma de triângulo, enquanto ele passava um giz barato em seu taco torto, de maneira totalmente amadora. Entretanto, não ligava para aquilo, empunhando o taco como se fosse um fuzil que abateria a presa mais desejada que um leão africano.

Alice insistiu para que ele estourasse, como se pedisse que ele conduzisse a dança. Nenhuma bola caiu. No entanto, a bola 12 ficou na boca. Ela matou como os olhos fechados e provocou:

-Maiores. Sempre venço com elas. Quer apostar a gelada?

-Aposto uma caixa e a chave da minha casa como faço todas as bolas antes de ti.

-Feito. – afirmou ela com a doce maldade de uma sereia que queria levar sua presa para o fundo do mar.

Jorge, em seus infindos pensamentos, agora encontrava-se desesperado. Sua mente ecoava a frase: “Merda. Não sei jogar sinuca.” Então apelava aos deuses protetores dos Bon Vivants e aos mestres das ciências ocultas da sinuca. Como oferenda, e sinal de reverência, dava um gole na cerveja e uma olhada descarada para as curvas de Alice. Já ela apelava para os Orixás, já que desconhecia a vasta ignorância e o despreparo técnico do adversário, que mal e porcamente sabia blefar, técnica que essa que só funcionava em jogos de cartas, especialidade de sua avó.

Era novamente a vez de Jorge. Bola três na boca: Errou e pagou a nove, matando uma das sete vidas que tinha para gastar naquela noite de jogos de azar, conquistas baratas e a vil esperança de tocar os lábios salientes de Alice. Vermelho, feito o batom da moça, ostentava a vergonha e a cara-de-pau de ainda dizer:

-Vou te dar uma chance pra ter graça.

-Muito Obrigado – respondeu ela em tom de ironia. Pago a próxima rodada então. – almejando para que o álcool logo fizesse efeito e Jorge parasse de fingir que era especialista em sinuca, ganhando realmente o jogo que ela queria disputar com ele.

Entretanto, a vida tem maneiras esquisitas de tirar seu foco. A vó de Jorge ligou para seu celular, avisando que sentia dores no peito e estava um pouco mal. Game over. Teria que abandonar o jogo e, por ora, o mistério sem roteiro que era Alice. Percebendo nele um semblante de preocupação, a garota indagou:

-Aconteceu algo?

-Minha vó está passando mal. Ela mora comigo e preciso ir até lá. Me desculpe. – com uma expressão frustrada no rosto.

-Tudo bem. Sem problemas. Faça o que tem que ser feito. – disse ela com um sorriso aconchegante, porém amarelo por ter sido derrotada por circunstâncias alheias à sua vontade. Era um empata, na real, pois os dois saíram derrotados naquela noite.

-Obrigado. A gente se vê. – foi apenas o que Jorge conseguiu responder, enquanto corria para fora do bar.

No entanto, um puxão na camisa dele o fez brecar. Era Alice.

-Anota meu número.

-Claro. Desculpa o mau jeito.

-Alice ditou categoricamente os números, mas o celular de Jorge travou. Entretanto, ele fingiu estar digitando, enquanto implorava para sua memória não deixar esquecer aquela sequência numérica. Agradeceu pelo momento e saiu em disparada para fora do bar.

Com a lembrança clara do incontestável brilho de Alice, guardou em seus sonhos o telefone que um dia iria mudar sua noite. Ao chegar em seu possante, um nobre fusquinha 76 azul calcinha, carinhosamente batizado de Moisés. Cortava o asfalto em direção de casa, mas como todo castigo pra pobre é pouco, a gasolina se extinguiu, fazendo o fusca tossir e encostar em frente a um motel. Gasolina na reserva, beijo na reserva, dignidade na reserva, e até mesmo sua vida estava na reserva. Seu fiel escudeiro motorizado havia cansado, logo numa área onde o maldito celular travado de Jorge não tinha sinal. A noite de oportunidades e tacadas tortas havia se transformado em um jogo de dados viciados, os quais a casa sempre ganhava. E advinha? A casa não era Jorge.

Estava há quatro quilômetros de casa. Lembrou de sua avó sozinha lá. A velha era sua família e sua professora invencível na canastra. Largou Moisés ali mesmo e começou a andar. Um quilômetro percorrido e já suava feito um porco. No segundo pensou em pedir arrego. Entretanto, no terceiro, avistou um carro que andava torto em sua direção. Nem sempre o diabo é tão punitivo quanto o deus do velho testamento, por sorte o carro era seu grande amigo Pedro. É necessário destacar que Pedro bebia como um condenado mas não perturbava a vida alheia. E mais, era pau pra toda obra (um pau d’água). Sentia prazer me ajudar seus amigos, e naquele caso não seria diferente.

Então, nosso herói ruim de sinuca, percebendo que o veículo era o inconfundível celta de Pedro, que também era batizado com um nome: Celton Mello, atirou-se na frente como um maníaco, fazendo o motorista atirar o carro para o acostamente.

-Porra! Tá querendo morrer, infeliz? Arruma outro carrasco pois tenho motivos demais para ir pro inferno. – Ao erguer os olhos percebeu que o maluco era Jorge, cantando Alemão Ronaldo:

-“Me leva pra casaaa. Me pega no coloooo. Me conta uma históriaaa. Me fala de amooor.”

-Jorge, numa boa, qual teu problema?

-Mano, por favor, me leva pra casa correndo. Minha vó ligou dizendo que estava passando mal, e Moisés enguiçou há três quilômetros daqui.

-É pra já! Entra no Celton e vamos ao resgate daquela velha sem vergonha que amamos tanto.

É preciso elucidar que Pedro, muito embora querido na cidade, era conhecido como “Resenha”. Verdade ou mentia, sempre tinha uma história (ou estória) para contar cheia de mínimos detalhes, caras e bocas e tudo que tinha direito uma peça teatral. A situação extraordinária não abalou o espírito de candidato a vereador de Resenha, o qual começou um longo discurso sobre uma mulher que havia trepado (ou não) na noite anterior. Mas a verdade é que Jorge estava pouco se fodendo pro pastel. Apenas três coisas preenchiam sua mente: o número de Alice, a preocupação com sua avó e a canção do Alemão Ronaldo, chamada Me leva pra casa.

Ao chegarem finalmente em seu destino, apenas o silêncio tomou conta do lugar. Sem delongas, Resenha desceu do carro e foi ao encontro de Dona Elvira, juntamente com seu amigo. Bateram na porta e nada.

-Cadê a chave, Jorge? – disparou Resenha,

Jorge estava tão atormentado com aquilo tudo que não sabia onde tinha enfiado o maldito molho de chaves, no qual haviam chaves de portas que nem existiam mais. Voltou ao carro de Pedro para procurar, mas ao virar as costas ouviu um estrondo de madeira rachando. Resenha acabara de arrebentar a porta com um chute, justificando seu ato pelo desespero que aquele silêncio estava causando. E de fato Jorge não se importou.

Ao entrarem na casa avistaram ao chão Dona Elvira esticada como uma taquara, e ao seu lado uma garrafa de Velho barreiro, sua cachaça preferida e um maço de cigarros paraguaios. Também carregava seu caderninho de pontos de canastra. Silêncio novamente. Ela estava morta. Os dois continuaram olhando para o corpo, como se já estivessem no velório. Algumas lágrimas desceram dos olhos de ambos. Resenha, completamente atordoado, pegou a garrafa do chão e deu um gole, cantando aos soluços de choro:

-Tá lá o corpo estendido no chão… – Jorge apenas reteve-se a olhar com reprovação para o amigo, que nem deu bola e continuou a chorar e beber.

É, a velha havia ido jogar cartas com São Pedro, enquanto Jorge revistava-se atrás de seu celular. Foi no carro e nada do aparelho. Procurou até nos bolsos de Resenha, que continuava a beber. Nada. Lembrou que havia deixado o telefone no porta-luvas de seu fusca.

-Resenha! Tá com teu celular aí?

-Faz três meses que não uso mais celular, Jorge.

-Caralho, mano. E agora? Precisamos ligar para o hospital, para que tomem os devidos trâmites com o corpo da vó. Mas, ok. Vamos ao encontro do Moisés para resolver isso.

-Moisés? Aquele do mar vermelho? Uma sessão espírita agora não vai trazer tua vó de volta.

-Cala a boca, animal. Moisés é meu fusca.

-Verdade. Mas e o presunto?

-Que presunto?

-Tua vó ali.

-Agradeço se tu tiver um pouco de respeito, cara. Mas acho que devemos deixar ela aí, já que não vai a lugar nenhum.

-Mas a porta ta arrombada, Jorge. Ou seja, algo pode entrar aqui, como um cachorro, um ladrão, um necrófilo, ou sei lá. Não podemos deixar ela aqui.

-Então me dá as chaves do teu carro que vou lá buscar o Moisés e volto. Tu já está bêbado demais para dirigir. Fica cuidando da vó ai.

-Nem a pau! Eu não vou ficar aqui com um defunto.

-Puta que pariu, Resenha! Vai dar uma de cagão agora?

-Só tem uma solução – fez uma pausa dramática. – Levar com a gente.

-Só pode ser zoeira.

-Sério, Jorge. Anda. Pega as pernas que eu pego a cabeça.

Cansado de tudo, Jorge acabou por concordar com resenha e foi levantando Dona Elvira. Ela pesava mais de 100 quilos e sofria de problemas cardíacos. Porém, nem por um minuto parou de fumar, beber e jogar. Sendo assim, ao arrastarem o corpo até o carro, veio a questão:

-Resenha, mas onde vamos colocar ela?

-No banco de trás, oras. Onde mais? Vai levar tua vó no porta-malas feito um porco?

-Ok. Banco de trás.

Resenha e Jorge ajeitaram a falecida Dona Elvira no banco de trás, sentadinha com cinto e tudo. Seria cômico se não fosse trágico, mas mesmo assim ainda era cômico. Jorge estava acostumado com desgraças, como todo bom brasileiro. Num país onde se leva a sério a piada e tratam como piada a política e povo, nada mais abalava tanto Jorge, o qual já havia aceitado que sua vida não passava de uma tragicomédia. É a velha sina do brasileiro: Viver e desviar. Jorge é só mais um, assim como Dona Elvira e os personagens que habitam sua vida. Assim, sem um final feliz, ademais sem qualquer final, partiram a todo vapor Jorge, Resenha, Dona Elvira e Celton Mello ao encontro de Moisés. As pontas soltas são nossos nós, os quais, muitas vezes, não faz sentido desatar, mas só aceitar.

Yuri Cidade

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