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O Concerto

O teatro majestoso encontrava-se repleto de uma expectativa palpável. As paredes eram revestidas de mármore branco, adornadas com arabescos em ouro, enquanto que grandes lustres pendiam do alto do teto, oferecendo uma luz suave e dourada. Os assentos, estofados em veludo azul, proporcionavam conforto aos espectadores que aguardavam com fervor o início do concerto real. O palco, por sua vez, era um oceano de madeira polida, emoldurado por um majestoso arco que ostentava detalhes em marfim e ébano.


No centro do palco, sobre um trono dourado especialmente preparado para a ocasião, encontrava-se o rei, um anão cuja figura era alvo de imenso respeito. Seus cabelos prateados esvoaçavam livremente, em contraste com a densidade e o primor de sua barba. O manto real, tecido escarlate bordado com fios de ouro, ostentava, em seu peito, o brasão do reino de Iridion. Seus olhos azuis reluziam com sabedoria e poder, ao passo que sua postura ereta transmitia uma presença autoritária.


Enquanto os presentes tomavam seus lugares com reverência, um arauto soou a trombeta e, com voz solene, proclamou:


- Prezadas damas e nobres cavalheiros, é com imenso prazer que lhes apresento a Orquestra Lunar.


O maestro então assumiu seu posto central no palco, revelando-se um jovem meio-elfo, cujos cabelos negros eram dispostos de maneira elegantemente desalinhada. Um fino bigode adornava-lhe o rosto, conferindo-lhe um ar distinto, enquanto uma peculiaridade singular o distinguia dos demais: seus olhos heterocromáticos, sendo o direito de um azul vívido e o esquerdo lilás acinzentado. Seu traje era uma harmoniosa fusão entre elegância e extravagância: um terno arroxeado, ricamente adornado por bordados dourados e toques empretejados. Um medalhão de prata, pendia de seu pescoço, testemunhava sua posição perante às artes bárdicas.


Ao passo que a orquestra dava início à execução de uma sinfonia majestosa para o primeiro ato, as notas musicais se entrelaçavam no ar, criando um véu sonoro que acariciava os ouvidos. O maestro regia a melodia com uma batuta que parecia ser uma extensão de sua própria alma. Cada acorde proferido parecia desencadear uma explosão de cores e formas no palco, como se os sons materializassem-se em um espetáculo visual de encantamento.


À medida que os acordes iniciais reverberavam, um espectáculo mágico e deslumbrante se desenrolava. Por meio de uma habilidosa combinação de projeções ilusórias e artifícios da manipulação dos elementos, o palco se transformou em um cenário que transcendia as fronteiras da realidade. Das entranhas da terra, árvores de cristal emergiam, com silhuetas etéreas envoltas por fios de prata que se entrelaçavam como teias de luz. Cada ramo e folha brilhava intensamente, emitindo um resplendor cintilante que parecia emanar do âmago da própria natureza.


No firmamento imaginário, seres alados alçavam voo, deslizando entre nuvens. Suas asas fulgurantes, feitas de plumas iridescentes, emitiam um brilho hipnótico à medida que cortavam os céus. Com elegância, desenhavam trajetórias celestiais, deixando para trás um rastro resplandecente que se desvanecia lentamente, como estrelas cadentes.


Com a chegada do segundo ato, uma atmosfera repleta de mistério e aventura permeou o recinto. Sombras dançantes emergiam do palco com uma aura enigmática. Essas sombras, habilmente manipuladas, tomavam a forma de heróis lendários, cuja coragem e destreza os faziam enfrentar criaturas sombrias e perigosas. Espadas reluzentes cortavam o ar, enquanto faíscas luminosas pareciam dançar em sua trajetória. Feitiços ancestrais eram conjurados em um duelo épico entre as forças da luz e as profundezas do abismo, em uma batalha de magnitude inigualável.


A terceira canção, o ato final, por sua vez, desvelava um conjunto de notas que ecoavam os mais puros sentimentos de amor e paixão. Suaves melodias moldavam-se, como fios de um tecido divino, enquanto o palco se transformava em um cenário digno de um jardim encantado. Ali, floresciam as mais exuberantes flores, desabrochando em uma sinfonia de cores e perfumes. Pétalas de rosa, como beijos etéreos, flutuavam no ar, formando efêmeros corações que se desfaziam em um brilho avermelhado.


Casais, envoltos em vestes esvoaçantes, entregavam-se a uma dança celestial, cujos movimentos eram uma expressão sublime da união de almas apaixonadas. Suas passadas eram leves, em perfeita harmonia com a melodia entoada. Cada gesto, cada contato, irradiava uma aura de romance e felicidade, fazendo com que os corações se rendessem ao êxtase. Era uma coreografia que transcendia o tempo e o espaço, uma manifestação sublime do poder do amor que pulsava em cada nota musical.


O rei, imerso em um transe de deleite e admiração, observava maravilhado enquanto as imagens se desenrolavam diante de seus olhos. A música e a magia pareciam envolvê-lo completamente, transportando-o para um mundo além das preocupações cotidianas.


Finalmente, quando a última nota ressoou, o rei levantou-se de seu trono com uma explosão de aplausos solitários. Sua voz ecoou pelo teatro vazio, enquanto exaltava:


- SAÚDEM, MESTRE ZHORON!


As palmas do rei, foram enfraquecendo a medida que tomava por si a realidade. Em meio ao clamor entusiástico, apenas o maestro estava no centro do palco, envolvido por um silêncio ensurdecedor, como se a música ainda pairasse no ar. Consigo, apenas o vazio e um alaúde de madeira negra que repousava em seu colo.


O rei, incrédulo diante de tamanho esplendor, encontrava-se catatônico, em um estado de assombro e prazer indescritíveis. Seus olhos, repletos de fascínio, fixavam-se no maestro, cuja arte havia transcendido todas as expectativas. Um sorriso de satisfação curvou os lábios do bardo, pois ele sabia, com uma certeza inabalável, que seu objetivo havia sido plenamente alcançado.

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