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Em um dia nu, me pus a andar pela rua. Foda-se o roteiro que tinha que terminar, eu iria sair pra espairecer. Era uma tarde quente, daquelas de início de janeiro. Pus meu chapéu, os óculos escuros e peguei meu cigarro. Acendi o primeiro e desci a rua. Virando aqui, dobrando ali, deixando o dia me levar, me deparei em algumas ruas mais desconhecidas da cidade. Não fazia 4 meses que havia me mudado, então tudo era novo pra mim. Parei em um boteco e comprei uma lata de cerveja. Munido dela continuei minha caminhada pela longínqua estrada de “não sei onde estou indo, mas irei.” Eu realmente estava em um vôo solo, sem escalas e sem destino. Uma tarde de “anarquia criativa.” Lá pelas tantas me deparo com uma locadora de filmes. Fazia anos que eu não entrava em uma. Quase uma década. A internet e cinema mesmo haviam dominado o mundo, de fato. Resolvi entrar. Ao cruzar a porta o cheiro de infância me subiu às narinas, como se me transportasse para a década de 90, onde meus pais me levavam à locadora de fitas VHS. O cheiro de plástico era como um perfume de uma doce lembrança. De quando minha mãe negociava comigo a possibilidade de levar um filme de algum herói japonês, daqueles estilo o Jiraya, porém ela me fazia levar um filme de algum conto de fadas da Disney. Na época talvez eu não entendesse o que isso significaria para minha criatividade literária. Agradeço até a ousadia de meu pai, que na maior cara de pau, se dirigia para a sessão pornô, pois alugando 3 filmes que escolhemos, o quarto saia de graça. E meu pai usava o bônus para o pornô. Anos 90. – Boa tarde, senhor. Posso ajudar? – perguntou-me um tiozinho de uns 60 anos. – Boa tarde. Estou só matando a saudade de entrar numa dessas. – Ora, que grande alegria. Com a chegada da internet e essas coisas, as locadoras perderam certo espaço. Minha vida era mais fácil nos tempos da fita VHS. – Porra. Como eu adorava aquelas fitas, tirando a parte de ter que reboninar. Ele deu uma risada e falou. – Um amante do clássico, então. Tenho algo pra lhe mostrar… – Opa, fiquei curioso agora. – Siga-me. Passamos por uma porta que havia atrás do balcão. Dentro da sala havia uma tela grande e vários aparelhos de vídeo cassete. – Caralho! O senhor tem um pedaço da história da humanidade. Incrível. Corri os olhos pelas prateleiras e lá estavam todos os filmes em suas capas, organizados por nome e ano. Eu tive um orgasmo nostálgico. – Quero assistir algo aqui! O senhor permite? Se for o caso podemos negociar e tal. – Capaz. Pode ficar à vontade. Escolha o filme que quiser. Porém, sempre assuma o controle. – recomendou-me. Isto me intrigou. Mas como estava em pelo êxtase, não liguei pra essa última fase. Corri a prateleira e fui escolhendo todos os clássicos que vi. Empilhei-os e fui na última estante. Porem, ao passar a mão por cima dela, não achei nada. Apenas uma fita VHS em uma capa de plástico genérica. Peguei-a, dei uma longa olhada pra ver se achava identificação, porém nada. Abri a capa e lá dentro uma fita normal. Preta, com dois rolos, os detalhes brancos das engrenagens, tudo nos conformes. Fiquei curioso. Coloquei a fita no aparelho e sentei-me. Catei o controle e procurei o play. Nada aparecia. Apenas um ruído mostrava que haveria algo naquela fita. Foi quando escutei um estrondo. Como se tivesse explodido um rojão do meu lado. Levantei e fui ver o que era. A porta tinha sido trancada. Porra, eu odeio ficar preso. Gritei inutilmente por um tempo, mas nem ao menos minha voz saia. Olhei pras minhas mãos e estavam brancas. O contraste com o preto havia sido aumentado. Pensei estar louco, e tive plena certeza quando tudo que eu falava era posto num painel, indicando minha fala. Eu estava mudo. Realmente achei que estava drogado. A sala começou a derreter numa tinta preta, escorregadia, engolindo todos por um buraco no chão. Me agarrei numa mesa e resisti. E quando dei por mim, as cores haviam voltado. Talvez tivesse sido um delírio, pensei. Olhei pra tela e ela refletiu minha infância. Estava eu com meus cabelos de anjo, a boca sorridente e fitas VHS em minhas mãos. Uma escolha minha e outra de minha mãe. Paralisei. Ao mesmo tempo que achava aqui bizarro, me emocionei ao me ver feliz em contato com a sétima arte. O mais estranho é que a fita parecia ter um defeito e isto a fez falhar o vídeo e pular cenas. Cenas as quais eu queria ter visto de novo, ou talvez gravar algo novo por cima. Queria que meu cérebro fosse como uma fita, onde eu pudesse gravar novas memórias em cima de algumas que eu não dava muita importava. Comecei a entender que a fita refletia minha vida. Meu longa metragem. O trabalho de uma vida. Cena após cena, sofrimento, alegria, depressão, êxtase, criação, tudo. Estava tudo ali diante dos meus olhos. Porém aquilo ali eu já sabia. O que será que havia gravado no fim da fita. Acelerei o vídeo até aparecer uma mensagem, na qual pausei. “Daqui pra frente não nos responsabilizamos pelo conteúdo exibido.” Minha curiosidade aumentou. Acelerei mais um pouco. Mais uma mensagem: “As consequências estão nas memórias do que não se viveu. Acelere até 119 minutos.” Acelerei os exatos números. Pausei. Respirei e tomei minha decisão. Apertei reboninar. A fita voltou e eu fui reciclado no começo daquela tarde, quando acendia meu primeiro cigarro e ia sair para caminhar. Com os olhos arregalados, desisti da caminhada e subi ao meu apartamento. Tomei um longo gole de uísque e sentei-me no sofá. Refleti e tive a certeza de que tomei a decisão certa. Bem melhor enxergar a vida sem um fim, pois não interessa quantas memórias grave, elas ainda continuarão sendo um filme que eu já vi. O presente é a única cena que importa. Peguei meu caderno e escrevi este relato. Rec.

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