A Mulher de Branco
- Yuri Cidade
- 30 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
A estrada que liga a Vila do Morro Agudo ao centro de Iriringá sempre fora silenciosa nas noites de bruma. Cortando campos de capim alto, moldados pelo vento e iluminados apenas pela luz pálida da lua, o caminho carregava mais do que poeira e pedras — havia um segredo antigo ali, uma dor que insistia em permanecer.
Dizia-se entre os cocheiros que, nas noites em que a lua se ocultava atrás das nuvens e o nevoeiro subia do solo como um véu, uma mulher pálida surgia à beira da estrada. Vestida de branco e com longos cabelos negros, pedia carona com uma voz suave e distante. Quem ousava parar, raramente chegava ao destino sem alguma marca: febre, delírios, pesadelos — ou, nos casos mais sombrios, o desaparecimento completo do cocheiro.
Foi após relatos sucessivos de carruagens encontradas vazias no caminho para o Morro Agudo que um grupo de aventureiros, a serviço da Academia de Cronistas do Reino, foi convocado para investigar o fenômeno. Entre eles estavam um jovem paladino, uma elfa feiticeira, um anão cronista e uma ladina acostumada com as sombras. Guiados pelas pistas deixadas em cartas rasgadas e testemunhos tremidos, partiram numa noite carregada de silêncio, em busca da verdade por trás da assombração.
Seguindo as trilhas de ferraduras e lamentos ao vento, o grupo chegou a um trecho da estrada cercado por capinzais altos. Ali, o ar parecia pesado e o tempo, suspenso. Foi então que a viram.
No meio da estrada, iluminada por uma luz que não vinha da lua, estava ela: a Dama de Branco. Pálida como mármore, trajando um vestido antigo, molhado de orvalho. Seus olhos, escuros e fundos, pareciam conter séculos de tristeza.
— "Me levem até minha casa..." — sussurrou ela, com um tom que soava mais como uma súplica do que uma ameaça.
Contra os conselhos da ladina, o paladino assentiu. Montaram a Dama em uma das montarias, e seguiram viagem, desconfiados. Mas com cada quilômetro, o ar esfriava, e o céu parecia mais distante. A estrada se alongava, como se dobrasse sobre si mesma. Logo, perceberam: estavam presos em uma ilusão.
A feiticeira lançou um feitiço de visão verdadeira, e o cenário se desfez como vidro quebrado. Estavam não na estrada, mas no meio de um antigo cemitério, esquecido entre os campos, com lápides tortas cobertas por musgo. A Dama agora flutuava sobre o solo, seu vestido sujo de terra, os olhos vertendo sangue.
O cronista, especialista em histórias antigas, reconheceu o nome numa lápide: Alméria, filha de um nobre que havia desaparecido no século anterior, após fugir de um casamento arranjado. Contavam que seu noivo a perseguira e, ao rejeitá-lo, ela fora morta e enterrada às pressas, sozinha, na escuridão do Morro Agudo. Sua alma jamais encontrou repouso.
— "Eu só quero voltar para casa..." — repetia Alméria, agora envolta por uma névoa espessa que tomava forma de espíritos errantes.
A batalha foi intensa. Os espíritos conjurados por sua dor atacavam como lâminas etéreas. O paladino empunhou sua espada sagrada, enquanto a ladina saltava entre túmulos, tentando atingir a essência da entidade. A feiticeira conjurou círculos de contenção, enquanto o cronista recitava versos antigos para acalmar a alma da Dama.
No clímax do confronto, a feiticeira alcançou o espírito de Alméria com um feitiço de lembrança ancestral, revelando-lhe a verdade: que seu corpo havia sido esquecido, mas sua história fora resgatada. Que havia quem se lembrasse dela. Que ela poderia descansar.
Em prantos espectrais, Alméria caiu de joelhos, e, com um último olhar para o céu, dissipou-se em brumas prateadas. Os espíritos cessaram. O cemitério pareceu respirar pela primeira vez em séculos.
Na manhã seguinte, ao retornarem ao reino, os aventureiros relataram a história. O nome de Alméria foi inscrito no Livro dos Lamentos, no santuário da deusa Lórea. Um monumento foi erguido no caminho de Morro Agudo, onde antes a Dama de Branco surgia. Desde então, ninguém mais desapareceu na estrada.
Mas os viajantes que cruzam por ali, ao verem o capim dançando ao vento, dizem sentir um perfume suave no ar — e, por vezes, escutam um sussurro gentil:
— “Obrigada por me levarem para casa…”
Este conto foi criado coletivamente na Turma 3 da oficina “Literatura Interativa: Oficina de RPG nas Escolas”, realizada na E.E.B Professora Maria Garcia Pessi com alunos do programa de Altas Habilidades e Superdotação (Vespertino). A história se baseia na lenda araranguaense da Mulher de Branco e foi adaptada para o universo de fantasia de O Reino de Iriringá, como parte do projeto realizado com apoio do EDITAL DE CONCURSO PÚBLICO Nº 37/2023 – Lei Paulo Gustavo – LPG – D+ SC/2023, do Estado de Santa Catarina.




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