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A queda

Eram 23:15 horas. A lareira crepitava com pedaços de uma cadeira velha, uma lista telefônica de 2004 e todas as bitucas de cigarro que fumávamos. Eu ali de cueca pensando no próximo poema, na próxima foda, no próximo do próximo do próximo, fazendo do agora apenas um lapso de tempo pra se pensar no momento seguinte. Sua silhueta dançava ao sair do banheiro. Sua sombra requebrava no tom do meu desejo. Mais um trago, um copo, um beijo, um maço, um pedaço, um orgasmo. O fato era que nada naquela noite me faria mal. Apenas o pensamento de que tudo estava sendo bom demais. Levantei, toquei de leve sua cintura que se esticava na janela ao olhar as luzes que o clima natalino trazia. – Como brilham todas, não é? – me perguntou sem olhar pra trás Brilham tanto quanto nosso bolso consegue pagar. Ela deu de ombros, enquanto eu andei pela cozinha procurando um saca rolhas. Abri a garrafa e bebi no bico. Após, servi mais duas taças e trouxe pra minha amante desfrutar do ébrio. Porém, não a encontrava mais pela casa. – Vitória?! Vitória?! – nada respondia – Se você está escondida aqui, saiba que quando eu achá-la vou querer que você faça algo especial pra mim, hein?! Quarto, sala, cozinha, tudo vazio. Naquele momento meu peito sentiu um soco e um vazio ao mesmo tempo. Olhei pro chão e as roupas, inclusive a calcinha de Vitória, continuavam ali. Ela tinha que estar aqui. O bairro sempre fora barulhento, então aprendi a ignorar o que acontecia na rua. Mas aquela noite pude ouvir a voz de Vitória no meu ouvido dizendo: – Olhe como eu brilho. Desesperado fui até a sacada do sobrado. De lá vi apenas um corpo feminino nu atirado ao chão com algumas pessoas em volta. – Pra estar aqui, devia ser uma vagabunda – gritava uma senhora com uma penca de filhos que arrastava pra igreja. – E era mesmo! Ela era casada com o Dr Clóvis, dono daquela empresa famosa. Tinha de tudo e veio acabar aqui trepando com alguns desses fracassados. – exclamava o policial que não deixava a população tirar mais fotos do que já haviam tirado. As lágrimas vieram ao rosto. Acendi um cigarro com a mão mais trêmula do que nunca. Talvez eu jamais tenha sido apaixonado por ela nesses 3 anos de casos alheios. Mas talvez eu já a amasse muito mais do que compreendia. Naquele momento ela devia estar me odiando, pois não tive a decência de descer e me entregar ao seu luto após nosso último gozo juntos. Eu sou um covarde. Tanto quanto o Clóvis que batia nela por qualquer motivo, até mesmo por broxar. Me revoltei comigo mesmo e comecei a atirar coisas na lareira. Escritos, folhas, lápis, caneta, tralha qualquer de escritor suburbano. Mas consegui puxar uma folha que havia o perfume de Vitória. Nela apenas se lia: “Clóvis descobriu tudo. Não sou mulher suficiente para encarar meus filhos e contar-lhes quem é o verdadeiro pai de Antônio. Desculpe meu amor, mas tenho que me apagar da sua vida. Meu brilho hoje se apaga. Com amor, Vitória!” Em choque. Era como se eu tivesse morrido. Vitória dessa vez não havia vencido. Ela perdeu pra si, pro preconceito e pelos preceitos de julgamentos que condenavam seus desejos. Vitória jamais poderia virar o jogo, pois o famoso Dr. Clóvis já havia acionado advogados, detetives e as correntes que ele já havia lhe amarrado e estuprado inúmeras vezes. A ambulância veio, juntou aquele lindo corpo ensanguentado, o povo seguiu seu rumo hipócrita e a viela se emudeceu. Nem uma palavra ou investigação veio até mim. Vitória nunca esteve viva pra polícia. Hoje, eu bebo à Vitória, enquanto queimo suas roupas e seu bilhete. Meus confetes de carnaval eram o luto de uma quarta de cinzas em plena sexta feira. Fazem 7 dias que Vitória morreu e 3 de que ela foi condenada à vadia drogada da classe média. E não há 1 dia que eu não caminhe até a janela, olhe para as luzes e enxergar o que ela dizia que brilhava tanto: as estrelas formando as saudades de quem se foi.Yuri Cidade

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