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Escreva-me

Uma ressaca. Nem sempre me senti assim. Como também nem sempre fui um escritor. Porém, demorei entender o que eu era. Tudo se deu quando morei com Ele. Um intrigante companheiro de quarto, por assim dizer.

A vida era dura pra mim na cidade grande. Dividia um pequeno apartamento no centro com esse cara. Porém, eu nunca soube muito sobre Ele. Apenas dividíamos o aluguel e um espaço físico relativamente pequeno e não perturbávamos um ao outro. Nossos horários eram de extrema diferença. Minha rotina era engolir café o tempo todo, rezar pra não fumar uma carteira inteira de cigarros por dia e tentar não voltar pra casa de meus pais.

Eu era estagiário no período do dia e a noite frequentava a universidade. Era como se eu tivesse descoberto a sensação de enfiar uma lata de cerveja no rabo. O que mais me intrigava, é que por mais que eu trabalhasse e juntasse as míseras migalhas que o capitalismo forçado me jogava, sempre faltava alguma coisa. Enquanto que Ele parava o dia inteiro fumando, bebendo, fodendo, dentro naquele maldito quarto, o qual ele nunca me deixava entrar. Essa era a única regra da casa.

-Ei! Vai estar em casa hoje? – perguntei enquanto Ele cruzava a cozinha

– Acho que sim. Por que?

– Marquei um jantar com Alice.

– Fique à vontade. Qualquer coisa estarei no quarto. Bata, mas não entre.

– Ok. – acendi um cigarro no bico do fogão e parti pra sina do proletariado.

É complicado. O ser humano procura prazer em tudo. Mas o que se faz quando não se tem tempo? O tempo é tão abstrato que só via alegria em desperdiçá-lo quando conseguia sair da porra do escritório, sentar 10 míseros minutos na parada do ônibus e por alguns instantes não pensar em absolutamente nada. Se a cabeça vazia é a oficina do capeta, eu seria capaz de chupá-lo para ter isso.

Pegava a lotação cheia de gente e alguns animais que ficavam esfregando seus pênis ridículos em crianças, moças e até em mim. E ainda, se passividade não fosse exercida, alguém apanhava e era obrigado a descer. O mundo é uma grande orgia, na qual não depende de consenso e sim de você ter um buraco, seja no corpo ou na alma, para alguém meter e gozar.

Cheguei em casa naquela noite, jantei com Alice e ela foi embora rapidamente. Não entendi muito bem. Só vi quando Ele saiu do quarto e sentou-se no sofá comigo, enrolando um baseado.

-E aí? Como foi o jantar?

-Uma merda. Mal conversamos.

-As pessoas não têm tempo pra conversar umas com as outras. – ele nunca havia parado pra conversar comigo.

-Tem razão. É uma merda – dei uma bela tragada.

– Qual teu plano de vida?

– Não tomar no cu, mais do que já tomo.

– Bela meta. Mas por que você faz o que faz?

– Hum!? Não tenho escolha, eu acho.

– Escolhas… Complexo. Vai até a sacada e me diga o que vê.

– Você tá chapado. – tomei um gole de cerveja

– Você também. Você bebe, fuma, acho que transa, trabalha, come, corre, dorme, por que diabos você não pode ir à sacada e me relatar o que vê?

– Até você me dando ordem? Era só o que me faltava.

– Não é isso que a gente faz? O tempo inteiro recebemos uma ordem. O ponto está no seguinte: de quem você a recebe. Você quer ir até a sacada, siga a sua ordem.

– Eu vou. Mas só pra tu parar de encher o saco. – levantei, catei minha cerveja, meu filtro vermelho e fui até a sacada.

– AGORA DIZ O QUE VOCÊ VÊ? – gritou do sofá.

Parei, traguei e respirei. O ar invadiu meus pulmões, mostrando algo diferente aquele dia. Mesmo rodeado de prédios, pessoas e indagações, me senti finalmente cheio por não estar pensando em nada. Eu vi a rua, o calor de novembro rompendo os parapeitos à luz da lua. As prostitutas nas esquinas, buscando uma próxima foda pra comerem no outro dia, enquanto seus cafetões passavam fiscalizando o movimento, como se estivessem supervisionando uma linha de produção. Tudo parece uma fábrica. Porém, o produto é sempre o mesmo: ocupação. A ocupação disfarça o sadismo recíproco entre nós. Somos viciados, tanto quanto alguém que joga compulsivamente. Eu sempre estou afim de algo novo ou de só preencher uma rotina vazia e ilusória com coisas que dizem ser o certo. O certo é que tudo é uma foda mal dada. Você sempre quer, mas nem sempre está disposto. As vezes não tem o porquê gozar, mas a vontade e a obrigação de mostrar seu potencial é tão grande e influente que acabamos sendo forçados a gozar o que não temos. Nossa visão de termos poder é uma merda, pois sempre iremos ter o que não queremos realmente.

Eu estava cansado. Chorei e gritei as palavras que saíam da garganta arranhando como se fossem unhas compridas riscando um quadro negro abstratamente. O barulho, o caos, o silêncio ou a plenitude, tudo isso já está implícito num conceito pré-criado por alguém que pensou ter descoberto a receita pra se viver. Entendi o que é ter prazer, olhando por aquela sacada cinzenta: Tudo é prazer quando se quer, até mesmo quando se quer o nada. No fundo, habitamos apenas uma grande poça de areia movediça nos comendo até pararmos de respirar. Pro inferno! Eu quero. Eu quero. EU QUERO! MAS O QUE EU QUERO? PORRA!

O silêncio reinou e Ele não disse nada. Olhei pra trás e o filho da puta tinha me deixado sozinho. Com raiva, fui até a sua porta.

-Abre essa merda, seu babaca. Fez eu ficar monologando por 1 hora, me iludindo de que tinha visto algo diferente.

Não respondeu. Apenas ouvia-se um tec-tec, batendo algo.

Cansei de chamar, chutei a porta e o quarto estava vazio. Branco como uma sala de tratamento de choque. Nunca havia entrado nele. Numa mesa ao canto, apenas uma máquina de escrever com uma folha quase no fim.

Fui até a máquina e puxei a folha para ler o que aquele maluco havia escrito. Em seu corpo estavam estas mesmas palavras que leem.

Eu era Ele.


Yuri Cidade

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