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Hotel dos esquecidos

– PORRA! Corre lá! Tem gente morrendo, caralho!

– Ordens são ordens.

Esse minúsculo diálogo clareou uma imensidão negra a minha frente, com diversos espíritos obsessores mancomunados com a neblina espessa e toxica.

Poucas horas antes do apocalipse se instalar naqueles corredores, tudo corria bem no histórico edifício Valentim, vulgo Valetão, popularmente apelidado.

O edifício Valentim fora construído na década de 40, passando por diversos donos até finalmente ser tombado como patrimônio histórico. O prédio possuía um único bloco, com 6 andares, com 10 quartos por andar mais a cobertura, área externa com piscina e quadra de futebol. Tudo isso situado no pé do morro do Jaburu.

Nos anos dourados de Valentim, o edifício era um hotel de luxo. O seu hall de entrada era gigantesco. Ocupava o espaço do térreo todo. Suas luzes reluziam ao público que por ali transitava. Lá se hospedavam artistas internacionais, grandes nomes da política e da mídia brasileira, times de futebol, entre outras figuras simbólicas da cena social da época.

Na década de 80, Valentim fora hipotecado. Levaram-no a leilão e posteriormente ficou sob o domínio do estado.

Houveram inúmeros fracassos em busca de uma finalidade para o prédio. O mesmo abrigou por tempo algumas repartições públicas e mais umas porcarias que o prefeito arrumava. Todas as alternativas foram completos desastres e o pobre Valentim definhava com o tempo.

Há 10 anos atrás, mais ou menos, o edifício fora deveras condenado. Porém, até pra demolir um prédio a burocracia estatal estaciona. Com isso, devido ao escoamento dos menos afortunados para os morros locais, o morro do jaburu transformou-se no complexo da Guarita, ou também chamado de Favela do Professor, nome dado pelos habitantes em razão de um antigo morador que conseguiu que fosse feita a instalação de uma escola no pé do morro, mas fora assassinado dias após a inauguração do colégio.

Assim, nos dias atuais, a Favela do Professor se expandiu para todo o morro, tomando pra si o que era abandonado. Nada mais justo do que os esquecidos pegar aquilo que lhe é semelhante. Valentim virou Valetão em pouco tempo.

Agora o edifício funcionava de maneira deplorável. Instalações elétricas velhas emendadas com gatos feitos ao longo do tempo, a piscina estava completamente destruída pelo descaso e abrigava uma água verde amarronzada, onde se era despejado lixo ou qualquer outra coisa que fosse possível, seu hall agora era um labirinto de casebres e quartinhos que mendigos, traficantes e prostitutas usavam como lar e como firma. Porém, na parte de cima, onde situavam-se os quartos, famílias inteiras, com mais de 6 membros cada habitavam os cubiculos, alguns até sem banheiro. Varridas para baixo do tapete social, o Valetão as guardava como podia, jamais lhes negando um teto.

Há mais ou menos uma semana antes, deu-se a notícia na televisão de que o edifício Valentim seria desocupado, podendo-se usar da força policial para cumprir a decisão. O povo esmoreceu. A revolta tomou conta, pois tiravam o mínimo de quem não tem nada. O Valetão sempre teve como finalidade abrigar a todos, desde sua construção. Mas o interesse do estado não batia com a finalidade do prédio.

Dias depois, a polícia chegou para cumprir a ordem. Não seria tão fácil assim. Os manifestantes atiraram-se no chão, se recusando a sair do local. E como dou aulas no colégio do morro, assisti tudo aquilo muito próximo da janela da sala dos professores. Enfim, houve um confronto. Pedras e paus voaram para cima dos coturnos negros, os quais responderam com gás e borracha. Mulheres e crianças feridas imploravam por ajuda, enquanto policiais bateram em retirada devido ao número ineficaz de membros na guarnição. O caos aos poucos foi se calando, mas expandindo-se pela mídia.

Opiniões divididas, pronunciamentos políticos e mais um bando de pesquisas, enquanto Valetão agonizava junto com seus hóspedes. As paredes aguentavam o ódio do jeito que podiam. O estado insistia na ideia da desocupação e prometia ao povo “revoltado” (uma parcela de alienados e privilegiados) seu cumprimento.

Os dias foram correndo e nada era feito. As pessoas continuavam a habitar o Valetão. Tudo parecia ter estacionado na polêmica tentativa de desocupação. A vida lá já havia voltado ao normal, e todos os dias eu escutava um relato de uma criança diferente, preocupada com onde iria morar, caso houvesse a desocupação. Me sentia um merda por não poder fazer nada por aquelas crianças. Um sentimento de fracasso como educador.

No fatídico dia do acontecimento, um acidente nas proximidades do morro trancou o trânsito inteiro. Não havia como deixar o Jaburu. A noite já havia caído e ainda não tinha ônibus para eu poder voltar pra casa. Amargava um sofá na sala dos professores, enquanto meus colegas debatiam sobre o bônus de natal. Fui na rua fumar. Andei até um local onde podia se ver o edifício Valentim com toda sua majestade, mssmo que castigada pelo tempo e pela negligência. Olhei fixamente para suas paredes de concreto, imaginando quantas histórias diferentes elas escondiam. A glória e o sofrimento de tanta gente em tantos anos.

Entre uma tragada e outra, um pensamentos novo. Eu realmente estava triste com a decisão de desocupação.

Aí então, a frase que me cortaria ao meio.

– FOGO! O VALETÃO TA PEGANDO FOGO!

Olhei instantaneamente para as janelas do prédio e grandes labaredas começaram a lamber as tábuas. A fumaça negra tomou conta do quarteirão em segundos. Gente correndo por todos os lados, carregando o que podia ou quem podia. Choros, gritos, angústias. Tudo misturado me descendo a garganta como fogo vivo. Corri para ajudar do jeito que deu. Carreguei pessoas, joguei água com baldes e qualquer outra tentativa desesperada de apagar o incêndio. Nada resolvia. Valetão lutava contra sua extinção.

– Cadê a porra dos bombeiros? – perguntei às pessoas que ajudavam.

– Já liguei 6 vezes. Tão trancados no engarrafamento.

Eu via o inferno comendo pessoas. Salvava-se muita gente, porém algumas vítimas em chamas corriam desorientadas, morrendo carbonizada aos poucos, outras saltavam da cobertura, cometendo suicídio perante a morte iminente. Esvaziou-se até a piscina na tentativa de apagar o fogo com o esgoto que havia ali, mas nada adiantava.

Quando enfim chegou o corpo de bombeiros, começou-se imediatamente seu trabalho, tentando cessar o incêndio usando as mangueiras e extintores. Porém, notei que não jorrava mais água da mangueira. Corri até o caminhão e perguntei:

– Cadê a água?

– Acabou. Esvaziou o caminhão todo já.

– E os hidrantes?

– Estão desativados. Houve corte de gastos para manutenção, segundo a prefeitura.

– E não há um local onde possamos pegar água? Aquele lago aqui perto que é usado no abastecimento do bairro, não tem como puxar água de lá?

– Até tem. Mas não foi liberado.

– Como assim?

– Não deixaram a gente pegar. Decisão do estado. Julgou maior necessidade no abastecimento de água do bairro.

Aqui é onde entrou meu diálogo inicial. Escutei cada sílaba como uma bala que penetrava no meu estômago. Um nocaute fulminante. Valetão foi abatido. Perdurou, mas nosso campeão sucumbiu. Caiu parede por parede, matando tudo o que ficou em seu raio de existência, inclusive a fé de muita gente.

Notícia triste, fatalidade, culpabilização das vítimas e esquecimento. Milhares de teorias para o incêndio, mas nenhuma concreta. A pilha de destroços encontra-se lá até hoje, onde há uma placa com os seguintes dizeres: “área privada. Em construção”, Ao lado de uma imagem do futuro condomínio.

Yuri Cidade

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