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Leia a bula

Era março. O sol ainda reinava no país tropical, fazendo ser quase que impossível não ir a praia pela manhã. Todo dia eu fazia o mesmo trajeto. Descia a ladeira de meu apartamento com um livro, papel e caneta, uma garrafa térmica com vinho gelado e meus filtros vermelhos. Tornava todo dia a olhar para o mar em sua imensidão, porém o mar não me trouxe nenhuma inspiração. Conclui que essa técnica era só uma brisa errada dos Santos Poetas que abençoavam o Parnasianismo. Essa porra não funciona comigo, afinal, eu sou muito humano pra acreditar em mágica. Tão humano e hipócrita que resumo minha escrita à divagações filosóficas do cotidiano entediante. Trocando em miúdos: eu sou um chato. Esse bloqueio criativo estava me tirando do sério. Eu passei a não dormir direito, comer mal, e até mesmo a perder o interesse pelas saídas a noite. Oras, se um boêmio perde o tesão, melhor que morra então. Entretanto, eu continuava com meu ritual diário. Rumava à praia, sentava lá e ficava olhando a maldita folha em branco. Minha cabeça era um caos de ideias, mas não elas não faziam sentido. Não saltavam mais fora de minha caneta com a mesma facilidade. Em um desses dias, encontrei Naiara a tomar sol. – E aí, poeta? Algo novo? – Nada. Meu cérebro secou. Vou ter que procurar um emprego de gente “normal”… – Você? Tá me zoando? – deu uma risada – É sério. Minha cabeça não produz mais nada. – Cara, porque você procura um médico? Vai ver isso é falta de alguma vitamina… – Como se eu tivesse grana pro particular, ou paciência pra enlouquecer na fila do SUS. Afinal, aqui se você não tem um problema de saúde, é só você fazer a carteira do SUS que tu arruma. – Deixa disso. Vai numa farmácia. Tem um cara que eu pego as vezes, o qual é dono de uma farmácia. Passa lá. Ele vai te ajudar. – me deu um cartão – mas é uma farmácia diferente lá… eles realmente vão te entender. – Obrigado, Nai. Vou lá sim. Naquela tarde, me dirigi até a tal farmácia. O local parecia ter parado no tempo. Todos os móveis de madeira de carvalho castanho avermelhado, frascos transparentes por todos lados, alguns tinham rolhas ao invés de tampas, uma balança de ponteiro, caixa registradora de ferro, entre outras antiguidades que começavam a me assombrar. – Boa tarde, amigo. Que lhe posso ser útil? – perguntou-me um cara alto, magro, branco feito uma vela, e cabelos lambidos – Boa tarde, meu jovem. Então, eu sou amigo da Naiara. Ela me mandou te procurar porque ando tendo problemas de concentração e criação. Sou escritor, e sem meu cérebro, não sou porra nenhuma. – Ahh! Ela me falou. Separei pra você um complexo de componentes que vai te deixar criativo como Dalí. Pegue! – me entregou uma caixa com um frasco dentro. Sem nome, sem rótulo e sem nota fiscal obviamente. – Tá, mas que porra é essa aqui? Garrafada do Norte? – Não, não – disse ele rindo – isso é feito especialmente pro seu caso. Pode confiar! Uma dose diária e você estará ótimo. Qualquer dúvida, leia a bula. – enfatizando essa última frase – Olha, já tomei tanta porcaria nessa minha vida, que não é esse troço que vai me matar, não é mesmo? Vale a tentativa. Obrigado. Quanto lhe devo? – Nada, meu amigo. A primeira dose fica por conta da casa. – Poxa, você é o cara! Valeu! Saí e fui pra casa carregando aquele saquinho com o remédio. Tomei um banho, comi um sanduíche, fumei alguns cigarros e preparei uma dose de gim. Sentei no sofá, puxei o remédio e tomei uma dose. Relaxei e puxei meu caderno pra ver se saia algo. Passaram-se 2 horas e NADA. Nem a porra de uma letra. – Macumbeiro barato esse farmacêutico. Não deu nem uma onda pra eu pelo menos me iludir. Larguei tudo e fui até a varanda. De lá vi a cidade florescendo na noite. O sol caía no fundo ainda quando as primeiras luzes começaram a emergir dos locais. O som exalava dos bares, enquanto que, as pessoas apressadas corriam para seus destinos. Nisso, alguém bate em minha porta. – Já vai. Quem é? – Por favor, moço. Abre. – Tá, mas quem é? – Eu vou morrer! Puxei a porta com força e lá estava ela: uma mocinha de uns 20 anos, morena, olhos claros, pálida e ofegante. – Obrigado! – De nada. Mas pode me explicar o que tá acontecendo? – Você não lembra? – Do que? – Da noite passada… – Mas que diabos tu ta falando? – Você não se lembra… – Do que, caralho? Eu nem dormi ainda pra haver uma noite passada. Olha! agora são Nov… não pode ser. – meu relógio não mentia – 3 da tarde? – Você dormiu demais… – Como dormi? Eu lembro de tudo. Faz duas horas que tomei o remédio, sentei pra escrever e desisti. Fui na varanda e quando voltei você tava aqui. Não pode ser. – É, eu vou morrer. – An? Como assim menina? – Você não lembra. Preciso ir. – e disparou pela minha porta. Não entendia nada do que acontecia em minha volta. Como eu podia ter dormido ou vivido algo e não lembrar? Procurei em todos os cantos da casa qualquer resposta que me levasse à uma pista do que haveria de ter acontecido. Mas nada. Minha casa continuava com tudo no seu devido lugar. Voltei à mesa onde tinha tentado escrever. Ali havia um texto começado: “Aquilo que não tem cura, remédio procura inutilmente na mente daquilo que transcende. Pare e pense. Dope-se…” Não entendi muito bem o que eu quis dizer. Tampouco se eram minhas aquelas palavras, porém caligrafia torta lembrava a minha. Lá pelas tantas, lembrei do remédio que me deram. Peguei aquele frasco e sai correndo em direção àquela espelunca que havia me vendido. Entrei pisando firme. – Escuta aqui, seu farmacêutico fajuto! Que porra é essa que tu me deu? Não lembro de merda nenhuma da noite passada. – Ei, amigo. Tá maluco? Você quem me pediu isso… – Não não! Eu vim aqui indicado por uma amiga, você me deu um frasco e fui pra casa. Tomei uma maldita dose e fodeu tudo…. – Olha, você deve estar bem confuso. O remédio não pode ser o problema. Todo dia você vem aqui e pega mais um frasco… – Como é que é? Você tá me reconhecendo? Como assim dias? EU VIM AQUI ONTEM, PORRA! – e dei um soco no balcão. – Calma… você disse que tinha entendido tudo. Que suas criações voltaram e que tudo estava maravilhosamente bem…Falou que a cidade toda havia voltado a respirar. Nesse momento, sai de trás do balcão a mesma moça que bateu à minha porta. – Ei! Você! Você teve lá em casa agora! – Não se dirija a mim, seu palhaço! Você não lembrou de mim à três dias atrás, não é agora que vai lembrar. Porco. – An? – Não se faça de desentendido… – Eu pirei. Só pode. – Você disse que tinha lido a bula…- disse o farmacêutico. – Filho de uma puta! Faz menos de meio dia que tenho consciência do meu dia. Os fatos estão claros na minha cabeça. Vocês estão tentando me enlouquecer. Virei as costas e deixei a farmácia. A cidade continuava a mesma. O cheiro, sabor, som, tudo igualzinho. Porém parece que o tempo havia me pregado uma peça. Puto dá vida, encostei no primeiro boteco que avistei. Bebi por tempo indeterminado, ou seja, até estar inconsciente. Dessa vez eu ia apagar e não lembrar do que havia feito de verdade. Pois parece que o diabo resolveu me comer. Não preguei o olho. Fiquei sentado olhando fixamente para a janela. A vida. A cidade se construindo e respirando poluição, sexo, bebida e a falta de sobriedade de todos seus habitantes. O sentido era não fazer sentido. É fazer sentir. Eu estava confuso e bêbado, o que aflorava ainda mais minha melancolia, pondo algo dentro de mim a gritar: EU VIVO. Era muito estranho. Como eu não lembraria daquela moça? Ou das idas à farmácia? O que será que mais eu fiz e não lembrava? Eu estava fodido e pirando. Me sentia extremamente criativo, relia os pedaços de texto que tinha escrito, mas não conseguia sintetizar uma história, uma divagação com sentido de fato. Era como se eu fosse uma marionete preso à um superior divino, com um controle remoto, que decidia quando eu iria sentir ou perceber algo. Tudo era estranho de tal forma que eu não sabia se tinha dormido ou não. Porém, não sentia sono, nem fome. Assim, decidi ir em uma farmácia “normal” que havia perto de casa, rezando para que eles tivessem algum anestésico “corta-brisa” pra me fazer voltar a ter ciência do que faço. Entrei pela porta de vidro e me dirigi ao balcão. – SAIA IMEDIATAMENTE DAQUI, SEU MERDA! – gritou um farmacêutico gordinho, que apresentava um bigode dos anos 90. – An? Mas eu acabei de entrar!? – Não me interessa! Saia já da minha farmácia. – Meu senhor, eu não entendo o por quê disto. Pode simplesmente me explicar? Me dá um motivo e eu vou embora. – Seu grande filho da puta! Você já é o maníaco drogado que entra nas farmácias e destrói tudo atrás de uma suposta droga da criatividade. – Mas o que o senhor tá falando? – Sai daqui, ou se não… – puxou uma pistola debaixo do balcão e apontou pra minha cara. Saí correndo tão depressa, esbarrando numa velhinha que ia saindo. – É bom que você corra mesmo, seu corno! Eu vou te pegar! – gritou a velha. A vida estava tão confusa quanto minha cabeça. Como poderia eu ter feito tanta merda e não me lembrar? Tá, ok. Tem coisas que também esqueci em minhas noitadas, e outras que fiz questão de esquecer, mas realmente não era esse o caso em comento. Onde eu ia, tinha um problema. Alguém que me procurava em algum lugar pra cobrar algo que eu não lembrava de ter feito. Sendo assim, eu cansei de correr. Cansei de ter que buscar um final, um nexo, um fio da meada para me entender. O pior castigo de quem vive de criações é ter que explicar. Caguei. Foda-se. As pessoas te cobram coisas o tempo todo, e se elas resolvem querer minha cabeça, por simplesmente eu estar de memória vazia, que se fodam. Venham buscar, pois esperarei sentado. Voltei ao bar. Sentei numa mesa ao fundo e pedi para o garçom deixar a garrafa do Bourbon. Comprei cocaína com um cara que tava de bobeira por lá. Fui ao banheiro, cheirei, voltei pra mesa, passando a fumar e beber como louco. Realmente eu me senti entrando em parafuso naquele lugar. Ri. Ri como um retardado. Ri como se a risada fosse meu último suspiro de vida. Minha última reação humana que podia sentir de verdade. Eu queria lembrar daquela risada. Contudo, a maldita moça pálida apareceu de novo. Mas dessa vez ela estava deslumbrante em um vestido preto. – E aí? Vai me deixar morrer? – Vou. – Está blefando. – Não. Caguei pra ti. – Você não está cagando. Tá me salvando neste momento. – Não vou entrar em mais um papo sem nexo. – bebi – Cala a boca e me dá isso. – pegou o saquinho com pó no meu bolso. – Espera aí! Como você sabia? – Você me contou. – esticou um grande carreira e enterrou o nariz ali no bar mesmo. – Tá maluca? Olha essa gente em volta! – Como você anda lento ultimamente! Você é o dono de tudo! – Vai se foder. Eu não sou dono de nada. A cidade toda tá atrás de mim por inúmeras coisas que eu não.lembro de ter feito. – Eles estão atrás de você pelo que você não fez. – neste instante ela me beijou e ao terminar disse saindo – lembre-se: Você é a cidade. Leia a bula. Sem entender nada, fiquei parado com o cigarro entre os dedos. Todos me olhavam agora. De um reles desconhecido passei a ser o homem mais procurado da cidade. Levantei de onde estava e caminhei até a rua. Meus miolos fervilhavam. Ali na calçada estavam todos com quem havia uma desavença. Tiros, porretes, até mesmo tochas podiam ser vistas. Minha vida tinha virado um manicômio e eu estava mais suave do que nunca. Me senti novamente com o poder de dominar o mundo. Respirei fundo, enquanto todos me olhavam, acendi meu último cigarro, dei uma bela tragada e desviei o olhar de toda aquela gente, como quem simplesmente espera o trem passar por cima de si, enquanto olha a última miragem antes da morte. Senti a leveza do caos em minha mente. Percebi que eu não só amava a confusão, como também era filho dela. Como se todos ignorassem-na, moça passou desfilando, psicou e disse: – Bem vindo à sua cidade! Gritos e todos avançaram… Uma buzina cortou o ambiente me dando um puta susto. – Quer morrer, seu demente! – gritava um motorista para o velhinho que atravessava a rua. Eu estava novamente em minha sacada fumando e olhando a cidade pulsando. Os prédios, as edificações, as pessoas, tudo. Tudo era parte de si, agindo de forma coletiva ao extremo de suas individualidades. Porém, não fazia a mínima ideia de tinha dormido em pé ou se fui teletransportado milagrosamente pra minha dimensão. Voltei à mesa, papéis em branco e o maldito frasco de remédio. Peguei-o e fui jogar no lixo. Porém, lembrei: “LEIA A BULSA.” Puxei o papel amarelado que havia dentro. Desdobrei, e ali estava uma única sequência de letras, formando a seguinte frase: “Ao persistirem os sintomas da criatividade, fique sóbrio!”

Yuri Cidade

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