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Na teia da aranha

A tarde quente me tirava do sério. Aos poucos o escritório se tornou muito tedioso. Fumava enquanto caminhava em círculos pensando nas campanas que montaria a noite. É foda. Ser detetive particular é resumir-se na seguinte situacao: “Quem está corneando quem?”. E ninguém procura chifre em si mesmo se não valer uma boa grana. Fechei as janelas e resolvi me retirar. Ia dar uma folga e deixar que a noite voltasse para me trazer novos assuntos. No momento em que me direcionava à porta, um perfuime fez meus olhos procurarem sua fonte. Um cheiro doce como canela e maçã, misturados com a acidez da vodca. – É aqui que posso encontrar o detetivo Renato Santos? – falou uma mulher ruiva, com olhos verdes e penetrantes, trajava um vestido azul brilhoso e um chapéu Largo, parada na porta. – Sou eu. Em que posso lhe ser útil? – perguntei me sentando novamente na cadeira atrás de minha mesa de trabalho. – Esse lugar é sempre fechado assim? – perguntou inquieta por detrás da fumaça dos cigarros. – Bom, preciso de informações sobre a rotina de um homem. – Entendo… É seu marido? – Deus que me livre. Não me mancharia vindo aqui para descobrir um par de aspas. Preciso que siga e trace o caminho deste homem aqui. – me entrou uma foto amassada – O endereco de sua residência está no verso. Ele sairá amanhã as 8:20 da manhã. Não se atrase. – Mas eu preciso saber qual o nome dele e os motivos de eu estar o seguindo. Não acho seguro entrar em casos que desconheça a profundidade e a licitude. – Meu amor.. – disse ela olhando firmemente nos meus olhos, como se pudesse ver o que há de mais sombrio dentro de mim. – O nome dele é Rubens. É tudo que precisa saber por enquanto. Pago o dobro pelo sigilo. E aí? As contas estavam altas, mal me alimentava e sustentava meus vícios, não podia deixar passar em Branco. – Negócio fechado, porém metade do pagamento agora e metade no dia da entrega do relatório. – falei. Ela torceu o nariz e entregou a quantia num envelope pardo. – Mas quero esse relatório pronto para quinta-feira. – levantou-se e já foi saindo. – Moça! – chamei de volta- Qual seu nome? Ela rodopiou e soltou a fumaça enquanto pronunciou vagarosamente – Penélope – a fumaca cobriu meus olhos e inundou as retinas, fazendo com que eu perdesse a visão por um breve instante. Quando voltei a mim, ela havia desaparecido. Parecia que nunca viera até ali, exceto pelo perfume que ainda pairava no ar, misturando com o cheiro de cigarro. O resto do dia se decorreu morno. Procrastinei até a hora de fazer as campanas da noite. Porém, nem tudo foi tão normal como sempre. O primeiro se tratava um senhor de meia idade, cabelos grisalhos e era médico respeitado na cidade. Mas não pensem que revelar certas coisas é tão fácil. Tive que segui-lo por entre um trânsito que mais parecia estar em transe. Tudo isso pra ter que fotografar o médico trepando com um garoto que ele sustentava em um apartamento mais afastado do Centro. Isso me tomou umas duas horas e quase que me atraso para o próximo caso. Um marido obsessivo me requisitou para que seguisse sua mulher e descobrisse pra quem ela estava dando. Se ela estava dando pra alguém, que bom pra ela, porque dar pro trouxa que era o marido dela não valia a pena. Mas bem, segui cada passo da moça. Ela era uma mulher realmente muito bonita, e trazia no olhar certa insegurança quanto a isso. O maníaco devia pulverizar o psicológico da coitada. A senhorita entrou em um hotel de Quinta categoria. Mais parecido com um cortiço, subiu algumas escadas e adentrou em um quartinho. Cuidadosamente espiei pela janela junto com a câmera. A moça estava dando comida na boca de uma senhora de uns 70 anos de idade. – Quando o Ronaldo vem me ver? – perguntou ela para a mulher que a alimentava. – Logo logo, minha sogra. Ele anda trabalhando demais. Me abaixei e pensei : “Que filho da puta! A mãe do cara fodida e ele procurando chifre. Que porra de humani. ..” Mas antes que pudesse perceber, o meu cliente aparece em frente a porta, saca uma arma e antes que conseguisse impedi-lo, entrou atirando. – NÃOOOOO!!!! – Começou a gritar depois de ter percebido a merda que fez. Coberto de sangue de duas mulheres que tentaram lhe tratar feito um humano, chorava aos gritos apoiado sobre seus corpos. Até que em um ato de puro reflexo, puxou o gatilho da arma contra sua tempora, espalhando sangue por mais paredes. Uma fotografia vermelha de uma chacina completamente ignorante. O povo do cortiço assistia incrédulo. Resolvi sair de lá antes que me notassem. Nunca gosto de lidar com policiais e este caso já estava encerrado pra mim. Acendi um cigarro e voltei pra casa, tinha que descansar para meu caso na manhã seguinte. Tentei dormir o mais cedo possível, mas a imagem que havia presenciado horas atrás havia perturbado minha mente por completo. Não consegui a digerir tais atrocidades. Nesse ramo temos que nos acostumar com essa sub-humanidade que há. Porém, tomei um terço da garrafa de uísque e desmaiei sobre o sofá mesmo, sendo acordado apenas por meu vizinho ligando o radio logo cedo. Eram 7:30 e tinha que partir. Peguei meu carro e pontualmente 8:20 estava no endereço indicado. Pontualidade essa exercida também pelo meu alvo que pegou um táxi precisamente neste horário. Não deu nem tempo de parar o carro. Perseguia-o pelas ruas, mas seu caminho não parecia fazer muito sentido. Tal travessia mais parecia um trilha para despistar quem quer que o quisesse seguir. Quando finalmente o carro parou, ele desceu em frente há um prédio condenado, em um lado mais isolado da cidade. Olhou para os dois lados da rua, checando se tinha alguém lhe seguindo. Pra minha sorte, faço meu trabalho da forma mais discreta. Atravessei a rua e entrei no prédio também. Aquele lugar fedia. Vendia-se drogas e materiais advindos de roubos, havia mendigos dormindo em todos os cantos, alguns casais de viciados trepavam nas salas mais escuras, fazendo gemidos animalescos. Era uma sociedade a parte, em plena luz do dia. Era 10 da manhã e ja estava bem esquisito pra mim. Analisei o lugar, algumas mulheres e travestis ofereciam seus corpos, mas tive que me manter firme e ignorar suas gracinhas. Uma delas gritou de volta: – Não pense que você é melhor que a gente só porque trepa na sala roxa. Lá eles são bem piores. Aquilo me incomodou. Não conhecia nenhum bordel com aquele nome e olha que de puteiro eu entendo. Ja perdi a conta de quantos maridos entreguei para as esposas na porta de um prostibulo. Porém não fazia a menor ideia da origem daquele. Na minha frente notei uma luz roxa vindo do fundo de um corredor escuro. Uma música vinha de lá também, uma espécie de batida eletrônica e Death metal. Segui até avistar uma porta com neon roxo em volta e um segurança gigantesco na sua frente. O cara parecia um androide russo. Dois metros de altura, pálido e forte como pedra. E para garantir trazia uma pistola na cintura e um taco de beisebol na soleira da porta. Cheguei exatamente no momento em que Rubens entregou algo ao segurança e ele liberou sua passagem. Merda! Não fazia ideia do que havia de entregar para poder entrar e não podia demorar muito senão o perderia de vista. Notei que atrás de mim vinha outro homem, bem parecido assim como Rubens. O cara asobiava e agirava uma espécie de cartão para cima. Escondido na penumbra, na porta de um cômodo que dava no corredor, esperei até ele passar por mim para nocauteá-lo com uma coronhada. Revistei os bolsos e achei um cartão de membro oficial do clube Purple Dreams. Não era nominal, o que me parecia razoavelmente compreesivel sobre o sigilo de sua identidade. Peguei o cartão e deixei o corpo num canto escuro, de certa forma seguro. Tomei fôlego e caminhei confiantemente na direção do segurança. Parei diante do armário que ele era e ele soltou: – Cartão de sócio, por favor. – Entreguei. Ele verificou e assentiu com a cabeça. Abriu a porta e disse – Bom divertimento. E não quebre as regras, senão te quebro ao meio. – Engoli em seco e fiz sinal de concordância com a cabeça. Logo ao entrar notei um perfume forte de especiarias e corpos fodendo. Não era um simples bordel, era uma dessas boates secretas de orgia. Lá as pessoas podiam mostrar o que realmente são; Um bando de animais a procura de prazer, sem os filtros sociais que lhe aprisonavam. Agora eles eram de fato alguém e não um personagem padrão de uma certa bolha. A bolha estourou e jorrava porra com uísque. O dnheiro era algo bem presente la. Pessoas usando roupa de couro, numa pegada mais sádica, brincavam de maltratar ou serem maltratos em práticas BDSM. Era bizarro mas verdadeiro. No fim, me sentia feliz por estar em meio a Real face da sociedade. Talvez lá, mesmo em uma orgia, eles eram mais organizados do que a gente aqui do lado de fora. Procurei rapidamente com os olhos, e apesar da Luz baixa, encontrei Rubens passando por uma porta nos fundos, onde lia-se: Acesso aos níveis inferiores. Atravessei a porta também, se tratava de uma escadaria, onde haviam andares construídos abaixo do prédio. Do fundo de seu vão, podia-se ver um clarão roxo emergindo. Desci para o primeiro andar e notei um corredor lateral com três portas. Não havia sinal de ninguém. Cuidadosamente caminhei até as portas e tentei escutar, e algo abafado e engasgado vinha detrás de uma das mesmas. Aquilo parecia um calabouço ou alguma sala de tortura medieval. Havia um interruptor bem ao lado da que podia-se ouvir. Cliquei e uma luz azul iluminou o cômodo. Pela janelinha que havia na grossa porta de madeira espiei a procura de Rubens, e o que vi foi um homem nu, ajoelhado e amorcado, com correntes presas aos seus braços, que tentava desesperadamente esfregar-se contra uma mulher hemafrodita que urinava com seu pênis no homem. Uma cena completamente repulsiva para quem não se sente atraído. O homem loucamente a debatia, com seu membro enrijecido, completamente dominado pelo tesão. – Você não foi um bom escravo. Merece castigo. – Brandiu um chicote contra a pele do homem, que gemeu abafadamente. – E você ai atrás da porta? Veio so para olhar ou quer um pedacinho de mim? – a moça virou-se para mim masturbando seus órgãos enquanto seu escravo banhava-se no próprio sangue. Ouvi Passos e desci mais um andar. A cena anterior ainda assombrava minha mente. Uma música de elevador transformava este andar numa espécie de lounge do lugar. Diversas pessoas nuas atiradas pelos pufes do local, recebendo doses grátis da droga que quisessem. O lugar era anestésico. Alguns mais agitados masturbavam-se compulsivamente ou trepavam entre si aos montes, sem parecer conseguirem matar suas vontades. Algumas mãos até tentaram me agarrar, mas sem muita força. O lugar parecia tomado por um gás que deixava tudo mais lento e preguiçoso. Os que acabavam pegando no sono ou desmaiando era estuprados pelos mais nervosos. Dominação acima de qualquer coisa. – Eu tenho direito ao pacote especial! Passei por todos os níveis. Quero a rainha agora! – Era Rubens que gritava a um outro segurança que guardava o próximo andar da escadaria. – Me desculpe, senhor. Mas não vai passar. Você está proibido de ir até a mãe. O segurança mal terminou de falar e foi surpreendido por Rubens enfiando uma garrafa em sua garganta, jorrando sangue por seu corpo todo. Ele se livrou das roupas, lambeu o sangue desceu nu e histérico pelas escadas. Ninguém pareceu dar bola para o que acontecia, e aos poucos começaram a esfregarem-se no cadáver ensanguentado do segurança. Corri de la e desci. Subir já não sei se era uma opção muito sensata. No último andar do subsolo, a luz roxa dominava o ambiente. Forte e viva. A voz de Rubens ecoava: – TRAGAM A RAINHA ATE MIM. SOU DIGNO DE SEU GOZO E DE SUA CARNE. Me escondi em um canto mais escuro possivel. Então, a lux roxa se tornou o breu completo em dez segundos. Quando voltou, trouxe mais força e, para minha supresa, Penélope em um espartilho de couro negro. Suas unhas pareciam garras púrpura e seus olhos duas esmeraldas. – Aqui estou, meu amor. Venha até sua rainha. – falou ela no Centro da sala enquanto Rubens rastejava aos seus pés. – Isso bem obediente. Agora siga as ordens que lhe dou. Suba neste mezanino e caminhe para sua beirada. – o maluco subiu rapidamente, tropeçando e ainda pingando sangue. – Muito Bem. – Ela olhava sadicamente para Rubens. – Agora pule até mim. Venha, prove de meu corpo. – Ela deito abrindo suas pernas. Não fazia sentido alguem ter que pular para trepar, mas naquele lugar nada tinha sentido. Vi Rubens mergulhar e ficar preso num emaranhado de fios invisíveis, que posteriormente revelaram-se uma espécie de teia de aranha. Penélope soltou uma gargalhada e passou a se acariciar diante só homem que parecia sofrer preso naqueles fios. A carne dele começou a ficar marcada e gotas de sangue pingavam em cima de Penélope. – ESSE É O VERDADEIRO GOZO DA ARANHA. Súditos observem-me e deleitem-se comigo. – Luzes amarelas ascenderam dando imagem as silhuetas que rodeavam o resto do mezanino. Casais de todos os tipos trepavam hipnotizados pela cena. A excentricidade é só um nome chique para a loucura. – E minhas crias, podem alimentar-se da presas. Luzes verdes liberaram portinholas por onde se arrastavam escravos de Penélope, presos há sei lá quanto tempo, que rapidamente desmembraram Rubens, resumindo o mesmo a uma poça de carne e sangue. Uma plateia ovacionava Penélope, atirando dinheiro pela sala toda e gritando “Rainha”. Ela lambeu os dedos e a sala toda escureceu. Quando dei por mim, estava do lado de fora do prédio, com uma prostituta ao meu lado. – Você está bem? – disse a moça morena – Não sei. Como sai la de dentro? A sala roxa.. Penélope… Mortes… – Você foi atirado pra fora da sala roxa inconsciente. Não devia ter entrado lá. – Mas eu fui contratado para seguir um homem que acabou sendo morto la. Precisamos ir a Polícia. – Olha só, querido. Vou lhe ensinar uma lição valiosa. A sala roxa não é como esse pardieiro aqui. As duas coisas parecem a mesma, mas a diferença é quanto você pode pagar por sua necessidade. Alguns necessitam de apenas um boquete, outros precisam de um anestésico ainda mais forte para a interpretação de seus papéis na vida real, principalmente quem tem muito a perder se descobertos seus desejos. A humanidade é uma merda e você não vai salvar o mundo, pois quem lhe contrata é a quem você deve. E quanto a Polícia? Rubens era o delegado que iria assumir quinta-feira. Ninguém o queria por lá. Sacou? – Mas como você sabe tanto? – Do mesmo jeito que você, só que uso meu corpo para dar o que as pessoas querem. Já estive na sala roxa, ou você acha que não tem magnata broxa pagando para ser humilhado como mendigo? Amigo, a sala roxa é igual aqui fora, só trocam as mascáras. Sai de la atônito. Já havia visto muita coisa na vida, mas jamais fui alvo de uma intimidação dessas. Não dormi direito durante alguns dias e bebi o dobro pra compensar. Quinta feira. Penélope não apareceu. Mandou uma carta, em um envelope roxo. Dentro dele haviam um cartão de membro oficial do clube Purlpe dreams, o restante da quantia que ela me devia e um bilhete, que dizia: “A monarquia se mantém na ilusão da democracia e no circo do plebe. ” No jornal, a notícia: “Após a execução do Delegado Rubens, por uma facçao criminosa, Penélope Domingos é a nova delegada da cidade.” Não adianta, todos estamos presos na teia.

Yuri Cidade

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