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O fantástico mundo do cotidiano

Uma extrema e amarela ressaca avisava: são dez da manhã e você está sem cigarros. Filha da puta. Sentia meu corpo doer, a cabeça latejar e a memória fazer questão de não funcionar. Acho que meu cérebro já age por si só, filtrando coisas que não valem a pena serem lembradas, pois na cabeça de um cronista, qualquer palavra é motivo de discórdia. É uma balbúrdia só. Porém, tento ignorar minha debilidade física de um típico sedentário. Que merda. Que vontade de fumar um cigarro. Levantei e tentei cruzar a casa, porém um gato, que sorrateiramente entrou pela janela aberta, me deu um puta susto, fazendo-me saltar pro lado. Gato idiota. Escovei os dentes, pus qualquer roupa e sai. Ao me deparar com a realidade, o primeiro desafio estava lançado ao vento: Dona Zélia, a síndica do prédio. – Você está em débito com o condomínio há 2 meses. – Eu vou pagar essa semana. Já falei. Vai entrar grana de uns direitos autorais aí e… – Não me interessa. Ou paga hoje, ou vou ter que tomar providências. – ameaçou-me. Virei as costas e desci pelas escadas. Porra! Eu só queria comprar um maldito Maço de cigarros. Mas novamente a vida me dava uma rasteira. Um senhor cego me parou na portaria. – Você precisa me ajudar, meu filho. – Claro. Do que o senhor precisa? – Você deve encontrar a verdade. – Que? – Isso. Escondida por trás de todo um contexto. – O senhor bebeu? – Bebi da fonte da vida. – Ok. Vou nessa. – deixei o cego lá parado, mas juro que pude sentir ele me observando até a alma. Sai do prédio e fui no bar do Seu Joaquim. Dei de cara com o boteco fechado com uma faixa preta na porta. Fiquei curioso. Bati na casa ao lado, onde morava o seu filho, e perguntei: – Quem morreu? – Um tio meu. Irmão do pai. Teve que viajar. – Tá, e ele não deixou ninguém cuidando do bar? Você é filho dele. – E eu lá quero ter que lidar com a freguesia desse bar? – Ta, mas não daria pra tu me vender um maço de cigarros só? – Ah! Vai trabalhar, vagabundo. – E fechou a porta na minha cara. Andei duas quadras e avistei uma padaria: não vendia cigarros. Mais duas quadras e um mercadinho surgiu. Era um local amistoso, pouca gente, um samba tocando no velho rádio e o simpático sabor de cidade pequena. – Bom dia. – disse ao dono que atendia no caixa – Que cigarro tu tens? – Bom dia? São 11 horas! Quase tarde. E estou sem cigarros. O fornecedor chega hoje às 17. – Puta que pariu. Tá bom. – novamente saí frustrado e com mais vontade de fumar. A rua parecia cada vez mais quente. Já passava das 11:30 quando avistei um restaurante. Adentrei desesperado e tomei no cu. Rolava um assalto em plena luz do dia. Caralho. Um homem de máscara apontava uma arma em minha direção: – Tá querendo morrer? – Não. Eu só queria comprar cigarros. – Tá me tirando, mano? – É sério. Eu estou andando o bairro inteiro atrás de cigarros. – Não tem porra nenhuma de cigarro. Vai passando a carteira também e ninguém se machuca. – Ok! Ok! Mas.. tem como me deixar 8 reais? Pro cigarro. Não deu nem tempo de eu entregar a carteira e a polícia invadiu o lugar. Tiros e os caralho. Sai correndo e deixei o inferno rolar. Corri pra longe dali. Foda. Eu sou queria fumar um cigarro pra aguentar a ressaca. Meu corpo suava álcool. Andei mais uns metros e nem sabia direito onde estava. Senti o cheiro de cigarro no ar e segui. Uma tiazinha fumava um cigarrinho de costas. – Ei, minha tia – Que? – a velha se virou e revelou ser uma espécie de cigana. – Então – já fiquei nervoso – tem como a senhora me vender um cigarro dos seus? Tô há 2 horas procurando um lugar que vende cigarros. – Você é o futuro. Eu posso ver em seus olhos. – a velha não tinha um olho. Apenas uma cova que te engolia. – Ok, minha senhora. Já vi que não vai dar. – Siga até a verdade! Você é o futuro. Segunda vez no dia que me diziam aquilo. Desisti. Sentei-me num banco que havia na praça. Olhei ao redor e notei que estava vazia. Ou eu estava vazio. Meu pulmão, meu copo, minha alma, meu maço de cigarros de ontem, todos estavam vazios. Senti o calor escaldante do verão em plena uma hora da tarde. Até minha esperança de que chovesse cigarros havia acabado. Não tinha nem sequer uma nuvem no céu. O tempo foi passando e o sol cada vez mais forte. Um tédio absurdo, seguido pela triste ilusão de que havia tentado de tudo. Então, lembrei-me da verdade que tanto haviam alertado. Me questionei. Exerci uma linha de raciocínio, na qual concluí que o mundo ao meu redor é uma grande e gorda mentira. Vivo de minhas mentiras. Crio histórias mirabolantes e as vendo para pessoas. Dei-me conta que era nada mais que um mentiroso, que escreve seus delírios e usufruo deles. Em minha cabeça existe tanta coisa que daria pra formar um novo planeta só com a população de personagens que crio. Um escritor é um mentiroso nato. Afirmo isto e lhes digo que minto neste exato momento. Um personagem de si mesmo, com um papel pequeno, pois nem ao menos cumpri a simples tarefa de conseguir comprar um maço de cigarros. Assim, assumo a verdadeira história: O sol entrava irritantemente pelos vãos da janela do meu quarto. Estiquei a mão até meu bidê ao lado da cama e catei o relógio: 2 da tarde. Perdi tanto tempo inventando desculpas que não me levaram a nada. Nem ao menos um conto decente. E o pior de tudo: eu ainda preciso comprar cigarros

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