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O Porteiro

Meia-noite e trinta e quatro. Tudo continua igual por aqui. Sentado nessa cadeira, vivo mas finjo não ver o que acontece. O mundo é lugar bem estranho, pra dizer a verdade.

Afinal, todos nós vivemos em segredo, pois o que está por fora, aparentemente, é somente um escudo protetor de aceitação e disfarce pros demais princípios morais, sociais, religosos e todo esse blá blá blá. Meus olhos são como dois buracos vazios, os quais quando encarados, apenas escondem a escuridão de quem passa por aqui. Olavo, por exemplo, bate ponto três vezes por semana aqui. Me traz uma garrafa de gim, um maço de Camel vermelho e o jornal. Falando assim até parece que eu sou o chefe de alguma mansão, mas não. Olavo é um “amigo” que retribui certos favores que faço. Olavo se encontra com Valquíria, no mesmo horário em que diz à sua esposa que está na hora das suas reuniões do grupo de apoio aos viciados de alguma coisa que já nem me lembro mais. Transam, injetam, controlam seu horário até as 2 da manhã, saem e deixam as chaves embaixo do tapete para a faxineira limpar o local. A mulher de Olavo, Márcia, finge que não vê, talvez. O desgosto e o desespero de ter um casamento arruinado, perante a sociedade, é tão ruim quanto o caso oculto que Márcia tem com sua vizinha Andréia. Os filhos estudam na mesma escola, os maridos trabalham na mesma empresa, o mesmo cargo alto, donas de casa dedicadas ao casamento e aos filhos, porém só conseguem gozar uma com a outra. E não só isso, talvez elas só consigam se sentirem vivas e amadas quando ambas marcam a quarta-feira do cinema, na qual põem os filhos pra dormir e vão até o porão, onde há um projetor e uma tela branca. O filme rola enquanto elas rolam pelo chão em sua transa mais fervorosa. Mas nada disso é tão incomum quanto Carlos, síndico do condomínio onde moram as duas famílias. Carlos é um jogador nato. Conta cartas no poker, pedras no dominó e dinheiro que deve para os agiotas. Toda quinta e sexta, Carlos marca aqui, com mais uns quatro ou cinco viciados, uma mesada de cartas com abuso de cocaína, uísque e alguma prostituta que todos pagam para servi-los nua. Carlos é divorciado duas vezes, tem 6 filhos, mas a última vez que deu as caras na família, foi se escondendo dos tiros que procuravam seu crânio. A decadência humana é bem estranha. Porém acho que é uma das únicas formas que alguém encontra de se sentir vivo. O erro é tão extasiante e instantâneo quanto o acerto. No fim das contas, acho que tudo é questão de prazer. Assim como Denise, ela vem aqui, se entope de lsd e fica olhando pras paredes derreterem, enquanto faz sexo com dois ou três garotos punheteiros que ela acha na rua e lhes propoem uma aventura. Vocês devem achar isso um crime, um absurdo, ou algo do gênero. É sim, porém, não sou polícia e tampouco inocente. Vicente também se envolve com menores. Qualquer adolescente que está afim, homem ou mulher, de 500 pratas para deixar ele tocar ou lamber as partes do corpo que estão ainda em fase de amadurecimento. Os jovens saem contando as notas, enquanto Vicente fica no quarto, todo gozado, chorando por mais ou menos uma hora e meia. Após isso ele limpa os olhos, toma um banho, seca toda a bagunça e volta pros braços de sua amada esposa e seu filho recém nascido. Prostitutas, viciados, degenerados, homens e mulheres de família, aparentando pro mundo a moral que todos esperam. Muitos deles ganham prêmios, placas, desejos e até a inveja de algumas pessoas como a vida perfeita. Às vezes me pergunto: “por que não vou à polícia e acabo com essa zona toda?” Aí olho pra trás e vejo os olhos de Cristina brilhando ao me ver ganhando meu dinheiro e pondo comida na mesa. Sou tão corrupto e grotesco quanto meus “amigos”. Mas quem sou eu para julgar alguém? Todos têm segredos e prazeres. Nessa bagunça que se vive, poder se sentir vivo e sobreviver ao mundo real, é tão surreal que torna-se bizarro. Mas não me escutem, ou melhor, me condenem. Tanto faz. Todos temos segredos. De todo esse inferno, onde cada diabo tem seu quarto, continuo apenas sendo o porteiro de um hotel barato no subúrbio brasileiro.

Yuri Cidade

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