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Paranoia

Atualizado: 21 de set. de 2022

Certa vez fui morar em um cortiço afastado do certo. O bairro era pobre, as ruas fediam e sempre havia uma nova construção irregular, mas "aprovada" pela prefeitura, em um lugar vizinho. O sol castigava no pátio, fazendo aquele grupo de quitinetes ferver mais que o próprio inferno. Eu tinha o hábito de sentar-me na soleira da porta, fumar meus cigarros, ver as crianças brincarem e trocar ideia com os tiozinhos e demais moradores. Lembro de uma prostituta que habitava ali, mas era proibida de trazer seus clientes para lá, até porque políticos e banqueiros não frequentariam nosso ambiente. Seu nome era Jaqueline, se não me engano. Até trepamos algumas vezes por esporte, depois de compartilharmos alguns baseados. Mas a maioria dos inquilinos eram casais, os quais não conseguiram juntar muito dinheiro e tentavam criar seus filhos de maneira digna. Toda sexta era dia de samba ao ar livre no nosso cortiço. Bebíamos e cantávamos até de manhã. Ninguém se importava com nossa cantoria, até porque todo mundo ficava ali. As crianças adoravam ver como os adultos se divertiam. Apesar da pobreza, cenas como dividir uma gelada e outra, uma olhada, uma cantada, um abraço de sincero ébrio, uma gentileza, um obrigado, faziam daquele local caótico, um receptáculo de paz e jamais a polícia havia vindo ali.

Porém na última sexta-feira, a coisa ficou estranha. Jaque, minha vizinha, chegou com um ar perturbado, gritando com alguém no telefone, passou pela gente, nem olhou pros lados, entrando em sua apertada moradia, trancou tudo. Até mesmo puxou as cortinas. As luzes piscavam dentro da residência. Mas achamos que era só uma brisa errada de alguma droga que ela tinha consumido na rua.

Jaque era legal mesmo, não me importava se ela era prostituta, pois aquilo não tirava o brilho que ela tinha nos olhos, enquanto ficava horas trocando ideia comigo sentada na calçada da frente. Tocamos o samba até as 5 da manhã. Eu já estava bêbado demais para abrir minha porta, então resolvi fumar um cigarro no pátio mesmo e ver o sol nascer. Neste momento, ouço algo atrás de mim: – Psiu! Você! Não olha pra trás. Disfarça e vem até minha janela do banheiro. – Jaqueline me chamava nervosamente, como se estivesse em uma constante paranoia. – Cê tá muito doida, cara! Para com isso. – Cala a boca! Silêncio! Eles vão ouvir. – dizia ela fechando as cortinas Comecei a ficar desconfiado com aquela atitude, mas queria que se acalmasse. Me dirigi até a bendita janela do banheiro e falei: – Jaque?! Sou eu. Fale comigo. – Cara, cê vai fazer o seguinte. Cê pega um envelope que vou deixar embaixo da sua porta, e deposita ele numa árvore que tem ali na praça do bairro. Aquela árvore perto do busto de Tiradentes. Eles não podem descobrir. – Jaque falava com a voz trêmula. – Jaque, o que cê tomou? Porra, cê é linda, inteligente, não precisa dessa brisa torta. – Sério! Amanhã, as 16:45. Árvore do Tiradentes. – Jaque? Jaque? – não respondeu mais. Não dei muita bola pela conversa paranoica dela. Achei que era só uma nóia das drogas. Fui pra casa e dormi 10 horas sem parar. Acordei, fiz algo pra comer, fui ao bar comprar cigarros, e logo voltei pro meu “palacete”, onde já estava o maldito envelope no chão, colocado por baixo da porta. Peguei o mesmo, e fui até a porta da Jaqueline. Bati. Gritei. E nada. Dona Vera, veio até mim e avisou: – A Jaque não tá, meu filho. Ela disse pra eu te avisar que ela chega só as 20:00, e que você precisar quebrar o galho que ela te pediu, senão ela vai ter sérios problemas. Agora só não me pergunte o que é, porque ela disse que você já sabia. – Obrigado, Dona Vera. Vou fazer sim. Um favorzinho pequeno. Vou nessa. Tchau, Dona Vera. – virei as costas e sai correndo com o envelope para a praça, na esperança que encontrasse Jaque por lá. Me dirigi à tal árvore e deixei lá o envelope. Voltei para casa e prometi a mim mesmo ficar longe de pessoas problemáticas, pois acabaria maluco igual. E era exatamente isso que eu não precisava. Naquele resto de tarde, eu acabei me encontrando com uma mulher com quem tinha um caso ali no bairro. Transamos até o anoitecer e acabamos pegando no sono. Lá por umas 21:00 horas, escuto uma batida sutil na minha janela. – Quem tá ai? – perguntei baixinho perto da janela. – Sou eu. – era Jaque – Vai ali em casa agora. Por enquanto está seguro. – ouvi seus passos rapidamente e retilineamente até sua quitinete. Peguei meus chinelos, coloquei uma bermuda e fui até a residência dela. A porta estava entreaberta, então fui entrando. – Jaque?! Mas que porra é essa? – ela estava pregando tábuas numa janela, e tinha pintado seu cabelo de preto quase azul. Estava com roupas totalmente diferentes das que normalmente usava. – Sério, pára! A gente tem que procurar ajuda pra você. – Você nunca vai entender. Eles estão me observando. Desde o carteiro até os funcionários da metalúrgica. Em todos os lugares. Eles sabem que eu sei. E o que sei, pode mudar tudo. Sou uma resposta. – Meu deus! Não viaja. Você tá usando o que? Tem alguém que posso entrar em contato, caso você suma de vez, ou sei lá, entre em overdose? – Não viaja, você! Eu tô bem dizer limpa há mais de 6 meses. Mas foi lá na clínica que eles me descobriram. Você não entende. – Tá bom, Jaque. Eu vou acreditar em ti e tentar te ajudar. O que você quer que eu faça? – Faz o seguinte, pega esse telefone aqui que é de uma tia minha, diz que é meu amigo e que eu vou ir pra lá passar um tempo no campo. Preciso me esconder. Preciso que eles me percam de vista. – desembrulhou um papel todo amassado, com uns traços, nomes, números e símbolos riscados. Rasgou um pedaço, no qual continha um nome e um telefone: Tia Lúcia. Peguei o papel e fui embora. Sentei ao lado da minha amante, fumei um cigarro e fiquei olhando para aquele papel. Intrigado, resolvi ligar. – Alô? Lúcia? – Alô! Sim, ela mesma – respondeu a voz de uma senhora. – Opa! Então, aqui é um amigo da Jaqueline, sua sobrinha. – Ai, meu deus! O que ela fez dessa vez? – perguntou apreensiva. – Ela anda muito estranha… Umas paranoias. Soube que ela já foi internada. Ela queria que eu avisasse a senhora que ela está indo para aí, acho que por essa semana. Ela está muito estranha e nervosa. Diz que está sendo perseguida. – Então, rapaz! Ela tá assim desde que saiu da clínica. Saiu com esses papos estranhos. A mãe dela sumiu quando ela era pequena, então só restou a mim de familiar. Diz para ela vir, vou ver o que faço com ela aqui. Por favor, tente acalmá-la – Pode deixar. Vou ajudar sim. Entro em contato assim que ela sair daqui, tá bom? – Claro! Sem problemas. Muito obrigado, abençoado. Tchau. – Tchau. Na manhã seguinte, fui até a casa de Jaqueline. Ela abriu a porta, com um capuz preto e óculos escuros. – Você avisou? – perguntou ela nervosamente, tremendo – Eles já sabem que estou fugindo, mas não imaginam pra onde. Eu sou mais esperta. – visivelmente parecia perturbada demais. – Óbvio que eles não podem deixar uma pessoa que sabe tanto por aí, podendo contar pra todo mundo e mudar o rumo de uma população inteira. Eu preciso ir. – Jaque, por favor se acalma. Falei com sua tia. É só ir. Cê vai quando? – Amanhã as 6:44 da manhã. Esse horário eles não estão vigiando a rodoviária. – Ok, Jaque. Eu te levo lá amanhã. – Obrigado – e fechou a porta me colocando pra fora. Não preguei os olhos aquela noite. A paranoia de Jaqueline parecia ter surtido algum efeito em mim. Eu imaginava que tipo de coisa ela usava para ficar daquele jeito. Ou seria mesmo possível que ela estivesse sóbria? Fumei duas carteiras de cigarro até a hora levá-la. Cheguei na casa, a porta novamente entreaberta. Desta vez Jaqueline não estava. A casa parecia ter parado no lapso temporal que se encontrava. Tudo ali estava alinhado como Jaqueline deixara. Até mesmo suas malas estavam no centro da cozinha/sala, mas nenhum sinal dela por ali. Procurei documentos, ou qualquer vestígio que pudesse indicar o que Jaque tinha feito. Mas nada. Encontrei apenas aquele papel com anotações todo rasgado em um canto. Não havia marca de luta ou de invasão. Jaqueline tinha ido embora. Imaginei de que de tão paranoica, ela tenha ido embora sem nada mesmo, sendo que não estava em seu juízo normal.


Fui até a rodoviária, perguntando em todos os pontos se alguém tinha visto a mesma, mas nada. Ninguém viu nada. Até mesmo na rodoviária me disseram que não existia nenhum ônibus para aquela cidade naquele horário. No caminho de volta, liguei para o telefone de sua tia, e a ligação não completava mais: “Esse número não existe.” Quando regressei ao cortiço, tudo estava normal. As crianças, as pessoas, os cachorros e até o calor. Porém, o apartamento de Jaqueline estava vazio. Sem sinal de que alguém tivesse morado ali. Perguntei a todos os moradores, o que tinha acontecido enquanto fui na rodoviária. Eles apenas disseram: “Aqui nunca morou essa tal de Jaqueline, moço.”

Yuri Cidade

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