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Setembros

As paredes me comiam. Concreto por todos os lados. A fumaça do meu cigarro mal conseguia se dissipar. Oxigênio era relativo àquela altura. Nem ao menos sabia como tinha ido parar lá.

Uma placa dizia: o fim está aqui. Ache o começo. Um maldito quebra cabeças  o qual as peças se materializam nos passos e em cada parede que eu dava de cara. Merda. Era frio. Detesto sentir frio. Minha respiração tornava-se ofegante feito a de um cavalo após correr 10km. O cansaço foi dominando meus atos, e o desespero me fazia continuar tentando achar a maldita saída, ou entrada, daquele labirinto.

– Ei, você! – uma voz feminina atrás de mim.

– Porra. Cê também tá presa aqui? Sabe como a gente veio parar aqui?

– É tudo culpa sua. – respondeu-me

– An? Mas que diabos eu fiz? Comi alguém alguém casado? Se eu te fiz alguma coisa, me diga. Eu faço o que tu quiser pra me desculpar.

– Voce não deve desculpas a mim. Afinal, isso não vai ser problema pra você. É um construtor de desculpas como ninguém. – virou as costas e correu por um corredor à esquerda.

Estava sozinho de novo. Mas agora a agonia tinha crescido em 70%. Continuei correndo e dando de cara em corredores sem saída. Estava sem norte algum. Sentia sede.

– Olha só, você! Tá perdido amigo? – um senhor grisalho me encarava.

– Aleluia. Me tira daqui, por favor!

– Eu? – e deu uma gargalhada. – Não posso fazer nada por você. Olhe pra mim. Já passei. Sou apenas um amontoado de atos e traumas que ficaram pra trás e não devem importar. Boa sorte, na caminhada. – virou as costas e sumiu por um corredor. Até tentei ir atrás, mas era sem saída também. Estava vazio.

Me restava um cigarro. Meu isqueiro acabou o gás. O inferno se formava em cada passo dado. O ódio por aquele lugar crescia exponencialmente. Pensava em desistir e esperar pra morrer definhando naquele maldito labirinto. Porra, quem em sã consciência faz um labirinto? É nada mais que uma excentricidade de alguém que precisa expressar o complexo de toda sua existência. Ou seja, as dificuldades explanam o que a gente tem de mais instintivo.

Ouvi gritos, canções e até gemidos de prazer. Aquele lugar se tornava cada vez mais bizarro. Eis que o teto se transformou em uma grande tela de cinema, reproduzindo situações cotidianas de minha vida. Há cada nova cena, uma dor diferente. Os fatos se complementando entre si, mostrando o resultado das ações impulsivas e de omissões covardes. Chorei.

Minhas lágrimas escorriam rosto abaixo. Não entendia quem poderia ter me prendido ali. Os vícios iam me corroendo conforme o tempo passava. Uma tortura sem tamanho.

Munido de raiva, tive um chilique. Comecei a rasgar minhas roupas e praguejar às paredes. Até que em meio ao ataque colérico, esmurrei a parede com toda força. Nem ao menos senti a mão quebrar.

Inexplicavelmente as paredes foram se rachando aos poucos, até que se desfizeram e deram origem à milhares de espelhos. Em cada um deles um reflexo diferente meu. Enlouqueci de vez.

Disparei a correr sem frear. Apenas corria. Fugia de mim mesmo. Como sempre. Entretanto, ao fim de um corredor encontrei um espelho quebrado. Só me faltava ser mais 7 anos de azar. Fui até a ele e nada refletiu. Apenas um vazio oco e gritante. Havia me perdido de vez.

Olhei para o chão e vi os cacos do espelho, refletindo o labirinto. Cansei. Era loucura demais pra mim. Agarrei com força aquele pedaço pontiagudo e o cravei em meu próprio peito. Senti a dor me comer e o arrependimento do ato me fazer voltar atrás. Mas já era tarde. Sangrava como um porco no abatedouro. Sucumbi ao desespero mental e paguei com a morte física.

Aos poucos fui me sentando e perdendo as forças. Em perfeita sincronia os espelhos foram se rachando. O tintilar do vidro esmigalhando-se ao bater no chão era como uma melodia fúnebre. Senti uma presença. Alguém me olhava de cima.

– O que tu quer, filho da puta? – bradei com sangue na boca. Ninguém respondeu. – Mas que inferno! O que tu quer? Não tá vendo que eu tô morrendo? – quando inclinei para cima o olhar, vi uma cópia me encarando com um isqueiro.

Peguei meu cigarro. Pus nos lábios e meu segundo eu abaixou-se para acender. Ao bater a pedra do isqueiro, a chama explodiu e me cegou.

Porra, deixei cair a brase na calça de novo. Estava em meu sofá, com a TV passando um programa de final de semana vagabundo e o cheiro de conhaque me avisou que eu havia derramado um copo cheio no chão.

Levantei para pegar um pano, e ao passar pelo espelho de um corredor, vi meu reflexo e lembrei do que havia passado. Sorri, pois sobrevivi mais um dia em meu labirinto. Nada mais angustiante que os ecos de seus ex-amores, do passado e do desespero que guardo em cada gaveta de minha mente. Morrer nunca foi uma solução, tampouco chegou a minha hora de desistir. Encarei novamente meu reflexo e disse.

– Hoje não.

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